Aula de Navegação de Goa

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Aula de Navegação de Goa
(valor desconhecido)
Outras denominações Aula de Nautica de Goa
Tipo de Instituição Ensino militar
Data de fundação 1759
Data de extinção 1774
Paralisação
Início: valor desconhecido
Fim: valor desconhecido
Localização
Localização Goa, Índia
Início: 1759
Fim: 1774
Antecessora valor desconhecido

Sucessora Aula de Marinha de Goa


História

A Aula de Navegação de Goa terá surgido, como a Aula de Artilharia de Goa, na sequência da provisão do Conselho Ultramarino de 10 de Janeiro de 1733, que mandou aplicar em Goa, o decreto de 24 de dezembro de 1732 que criou no Reino várias academias militares[1][2][3]. Segundo João Melo de Sampaio anteriormente eram lecionadas aulas “quasi ambulantes (...) que se leccionavam a bordo d'algum vaso de guerra, ou quartel militar"[1]. No entanto, foi Manuel de Saldanha, vice-rei da Índia e 1º conde de Ega que criou a aula, dada a necessidade de formar pilotos e de ter uma Marinha bem treinada face aos desafios que o Estado da Índia atravessava, como referiu em oficio de 1762: “estabeleci Aula de Navegação, de que vão saindo oficiais[4]; não deixando dúvidas que nesse ano de 1762, as aulas já funcionavam.

O ano exacto do início deste ensino mais regular, e não de lições com um caracter “quasi ambulantes” como referia Melo Sampaio é difícil de determinar. As fontes mais antigas indicam o ano de 1759[1][5][3] e a direcção de José Sanches de Brito desde o seu início até ao ano de 1775[1][3]. Mais recentemente, Nuno Martins Ferreira refere o ano de 1760 como a data de início desta aula e António Rodrigues dos Santos, como o lente responsável por essas aulas[6]. Numa carta datada, também de 1762, o vice-rei Manuel de Saldanha referia que “António Rodrigues dos Santos serviu muitos anos neste Estado em Piloto, e outros lugares e no meu tempo foi encarregado do exercício de Lente da Aula de Navegação[7]. Martins Ferreira, menciona ainda que, apesar do aparente bom funcionamento da aula nos primeiros anos, o seu êxito não seria o esperado, uma vez que passados dez anos, em 1774, o novo governador da Índia, D. José Pedro da Câmara era instruído a abrir uma Aula de Náutica[8][9]. A instabilidade da Aula de Navegação pode ter sido gerada pela partida de António Rodrigues dos Santos, nomeado para o Porto a 12 de Maio de 1764, conforme mencionado na carta patente de nomeação que o indicava como tendo sido “Mestre na Aula de Náutica da cidade de Goa, e substituto na de Lisboa[6].

Assim, e conforme as Intruções recebidas, D. José Pedro da Câmara, promoveu José Sanches de Brito, o comandante da nau Madre de Deus[10], na qual tinha seguido para a Índia, a “Chefe e Comandante de todas as forças navais de S. Magestage Fidelissima do Cabo para dentro[11]. Esta promoção aconteceu após a frota comandada por Sanches de Brito ter chegado a Goa em 21 de setembro de 1774, e depois de uma expedição à Província do Norte na qual o novo governador tentou uma reconquista de alguns dos territórios dessa província. Nas ordens era mencionado “que no Arsenal de Gọa haja quatorze Guardą Marinhas, que entrem na Aula da Nautica, que Manda estabeleçer, desde a idade de dez anos completos, e não menos, até a de quinze, e não mais; senda pessoas de nobreza distinta e justificada na presença do General do Estado com as qualificações que a Lei dos Cadetes determina[9].

Como o próprio Sanches de Brito deixou documentado em oficio datado de 1776, na altura da promoção - ou seja em 1774 - tinha ficado encarregue de escolher entre os oficiais do exercito os que entendesse para “se fazerem” Tenentes de Mar, Guardas Marinhos e Sargentos de Mar e de Guerra, de modo a “criar de novo nesta capital” um corpo de marinha, dando assim a entender que os esforços anteriores não tinham alcançado o resultado que se esperava e que era necessária uma reformulação geral na Marinha de Goa. Foi-lhe ainda ordenado que “para a Educação, e ensino Nautico, se estabelecesse Aula, e que para esta fizesse os Estatutos; e nomeado para Lente um Frade Agostinho”, que na sua vida secular teria sido piloto[11]. Embora o nome do “Lente, ou Mestre de Pilotagem”, que seria responsável pelas aulas, não seja mencionado, nem nenhum manual específico a ser seguido na Aula, este devia ser Leandro da Conceição, autor do Tratado da Navegação Theorica e Pratica segundo a ordem, e Methodo, como se ensina na Aula de Navegação aos offeciaes da Marinha desta Cidade de Goa por Frei Liandro da Conceição da ordem de S. Agostinho lente da dita aula para uso do Illustrissimo e Excelentissimo senhor Dom Francisco Joze Armando Saldanha da Camara. Anno de 1775[12].

Não foi possível apurar se Leandro da Conceição, ou mesmo Sanches de Brito, teriam dado aulas de navegação anteriormente a 1774, o que poderia justificar a afirmação de Carmo Nazareth: "D. José da Câmara, quando chegou à índia, encontrou já estabelecida a Aula de Navegação”[3]. Esta hipótese não pode ser descartada, pois por um lado, depreende-se das palavras de Sanches de Brito que Leandro da Conceição já se encontrava em Goa, por outro, Sanches Brito era oficial da Marinha na Carreira da India, pelo menos desde 1749.

O que se sabe é que Sanches de Brito elaborou um regulamento que designou por “Ordens que se hão.de observar na Aula da Marinha de Goa e método que se seguirá no ensino de pilotagem” do qual se encontram disponíveis dois exemplares à guarda do Arquivo Histórico Ultramarino[13]. A designação escolhida não foi Aula de Náutica, conforme mencionado nas Instrucções passadas pelo Rei, o que pode originar algumas dificuldades na compreensão da linha cronológica e historiográfica da Aula. Nas mesmas Ordens, Sanches de Brito considerou também a criação de uma Aula de Artilharia complementar e enumerou os conhecimentos que diversos mestres - de construção, aparelho, manobra – deveriam ter[14].

Temos notícia de que no dia 2 de Agosto de 1775 “se abriu a dita Aula [de Marinha] no meu quartel”, numa cerimónia pública com a presença do Corpo da Marinha e do governador onde os estatutos foram apresentados e “passados alguns meses se abriu a Aula de Artilharia[14].

Outras informações

Professores

São conhecidos: António Rodrigues dos Santos (1759?-1750?-1762/1764?), Leandro da Conceição (?-1775-1777?).

Desconhece-se se José Sanches de Brito terá alguma vez efectivamente lecionado.

Curricula

Conceição, Leandro da. Tratado da Navegação Theorica e Pratica segundo a ordem, e Methodo, como se ensina na Aula de Navegação aos offeciaes da Marinha desta Cidade de Goa por Frei Liandro da Conceição da ordem de S. Agostinho lente da dia aula para uso do Illustrissimo e Excelentissimo senhor Dom Francisco Joze Armando Saldanha da Camara. Ano de 1775[15].

Notas

  1. 1,0 1,1 1,2 1,3 Sampaio, “Breve Notícia da Origem e Divulgação dos Estudos Superiores em Goa", 111-116
  2. Miranda, Quadros Históricos de Goa, 2:81-88.
  3. 3,0 3,1 3,2 3,3 Nazareth, “Início de Estudos Militares Na Índia”, 283–289.
  4. Oficio de 12 de janeiro de 1762, do Conde de Ega, transcrito e publicado em Soares, Bosquejo das Possessões Portuguezas no Oriente, 1:117.
  5. Ribeiro, Historia dos Estabelecimentos Scientificos Litterarios e Artisticos, 13:313-314.
  6. 6,0 6,1 Ferreira, “A Institucionalização do Ensino da Náutica em Portugal (1779‐1807)”, 93; 94-99. Martins Ferreira menciona que António Rodrigues dos Santos foi nomeado para a Aula Náutica do Porto por carta patente de 12 de Maio de 1764. Nesse documento vem referido que Rodrigues dos Santos tinha sido “Mestre na Aula de Náutica da cidade de Goa, e substituto na de Lisboa”. Esta informação consta igualmente em Araújo, Bernardo, e Monteiro, 250 Anos da criação da Aula Náutica do Porto, 42.
  7. Ferreira, “A Institucionalização do Ensino da Náutica em Portugal (1779‐1807)”, 98 (nota 123) citando a carta de 1 de Fevereiro de 1762 em Arquivo Histórico Ultramarino, Índia, CU, cód. 441, fl. 360v..
  8. Ferreira, “A Institucionalização do Ensino da Náutica em Portugal (1779‐1807)”, 97-99.
  9. 9,0 9,1 Barbuda, Instrucções com que El-Rei D. José I , 26.
  10. Gomes, “Ensino da Navegação Em Goa I”, 29.
  11. 11,0 11,1 Arquivo Histórico Ultramarino, Índia, CU, cx. 87, cap. 47, Officios de José Sanches de Brito. Chefe da Marinha do Estado. “Oficio de 15 de maio de 1776”.
  12. Biblioteca da Ajuda, 49_II_82_Tratado Navegacao Goa. Leandro da Conceição, Tratado da Navegação Theorica e Pratica segundo a ordem, e Methodo, como se ensina na Aula de Navegação aos offeciaes da Marinha desta Cidade de Goa por Frei Liandro da Conceição da ordem de S. Agostinho lente da dia aula para uso do Illustrissimo e Excelentissimo senhor Dom Francisco Joze Armando Saldanha da Camara. Ano de 1775. Nuno Martins Ferreira chama a atenção para a possibilidade do exemplar que existe na Biblioteca da Ajuda ser uma cópia de um mais antigo uma vez que, em 1770, a aula mudava de nome para Aula de Náutica. Ferreira, “A Institucionalização do Ensino da Náutica em Portugal (1779‐1807)”, 101 (nota 131). A possibilidade de ser uma cópia parece provável até porque, no citado volume existente na Biblioteca da Ajuda, o texto remete para diversas figuras que faltam, podendo querer dizer que ou se trata de uma cópia onde as figuras não foram copiadas, ou que existiria um segundo volume. No entanto, pelas palavras de Sanches Brito parece o mais provável que o Tratado date mesmo de 1775. A questão do nome da Aula não parece ser tão importante na datação do documento uma vez que é possível que correntemente se tenha continuado a usar a designação Aula de Navegação, ou outro. Essa utilização de várias designações foi também referida por Nazareth que refere "D. José da Câmara, quando chegou à índia, encontrou já estabelecida a Aula de Navegação, que também era tida e conhecida como Aula da Marinha (...)" Nazareth, “Início de Estudos Militares na Índia”, 287.
  13. Existem dois exemplares: Arquivo Histórico Ultramarino, Índia (1741-1791), ACL, CU 058, cx. 87, cap. 47. 15 de Maio de 1776.; e um segundo exemplar, na mesma caixa, Arquivo Histórico Ultramarino, Índia (1741-1791), ACL, CU 058, cx. 87, cap. 53. Mangalor, 1871. O documento “Ordens que se hão.de observar na Aula da Marinha de Goa e método que se seguirá no ensino de pilotagem” não está datado, mas pelo “Oficio de 15 de maio de 1776” que se encontra na mesma caixa (Arquivo Histórico Ultramarino, Índia, ACL, CU 058, cx. 87, cap. 47, Officios de José Sanches de Brito. Chefe da Marinha do Estado.), é possível estabelecer que terá sido escrito entre Dezembro de 1774, quando a frota comandada por Sanches Brito parte para as Províncias do Norte, e 2 de Agosto de 1775 aquando da sessão inaugural da Aula da Marinha.
  14. 14,0 14,1 Arquivo Histórico Ultramarino, Índia (1741-1791), ACL, CU 058, cx. 87, cap. 47, Officios de José Sanches de Brito. Chefe da Marinha do Estado.Ordens que se hão.de observar na Aula da Marinha de Goa e método que se seguirá no ensino de pilotagem”. 15 de Maio de 1776.
  15. Biblioteca da Ajuda, 49_II_82_Tratado Navegacao Goa. Leandro da Conceição, Tratado da Navegação Theorica e Pratica segundo a ordem, e Methodo, como se ensina na Aula de Navegação aos offeciaes da Marinha desta Cidade de Goa por Frei Liandro da Conceição da ordem de S. Agostinho lente da dia aula para uso do Illustrissimo e Excelentissimo senhor Dom Francisco Joze Armando Saldanha da Camara. Ano de 1775.

Fontes

Arquivo Histórico Ultramarino, Índia, CU, cx. 87, cap. 47, Officios de José Sanches de Brito. Chefe da Marinha do Estado. “Oficio de 15 de maio de 1776”.

Arquivo Histórico Ultramarino, Índia (1741-1791), ACL, CU 058, cx. 87, cap. 47, Officios de José Sanches de Brito. Chefe da Marinha do Estado.Ordens que se hão.de observar na Aula da Marinha de Goa e método que se seguirá no ensino de pilotagem”. 15 de Maio de 1776.

Biblioteca da Ajuda, 49_II_82_Tratado Navegacao Goa. Leandro da Conceição, Tratado da Navegação Theorica e Pratica segundo a ordem, e Methodo, como se ensina na Aula de Navegação aos offeciaes da Marinha desta Cidade de Goa por Frei Liandro da Conceição da ordem de S. Agostinho lente da dia aula para uso do Illustrissimo e Excelentissimo senhor Dom Francisco Joze Armando Saldanha da Camara. Ano de 1775.

Bibliografia

Abreu, Miguel Vicente de. O Governo Do Vice-Rei Conde Do Rio Pardo No Estado Da Índia Portugueza Desde 1816 a 1821. Nova Goa: Imprensa Nacional, 1869.

Araújo, José Moreira de, Luís Miguel Bernardo, e Marisa Monteiro. 250 Anos da criação da Aula Náutica do Porto. Catálogo de exposição. Porto: Reitoria da Universidade do Porto, 2012.

Barbuda, Cláudio Lagrange Monteiro de. Instrucções com que El-Rei D. José I mandou passar no Estado da India, o governador, e capitão general e o Arcebispo Primaz do Oriente no anno de 1774. 2a ed. Nova Goa: Imp. Nacional, 1903.

Ferreira, Nuno Martins. "A Institucionalização do Ensino da Náutica em Portugal (1779‐1807)". Dissertação de doutoramento, Academia de Marinha, 2017.

Gomes, E. “Ensino da Navegação Em Goa I”. Revista Da Armada, (Agosto 2012): 29.    

Miranda, Jacintho Caetano Barreto. Quadros Históricos de Goa. Tentativa Histórica. Vol. 2. Margão: Typografia do Ultramar, 1864.

Nazareth, J.M. do Carmo. “Início de Estudos Militares na Índia”. O Oriente Português 5, no. 9-10 (1908): 283–289.

Ribeiro, José Silvestre. Historia Dos Estabelecimentos Scientificos Litterarios e Artisticos de Portugal Nos Sucessivos Reinados Da Monarquia. Vol.13. Lisboa: Typografia Real da Academia de Sciencias, 1885.

Sampaio, João Mello de. “Breve Notícia da Origem e Divulgação dos Estudos Superiores em Goa, ou Methodos europeus e em Língua Portugueza”. O Oriente Português 2, no. 3 (Março1905): 111-116.

Soares, Joaquim P. Celestino. Bosquejo Das Possessões Portuguezas No Oriente Ou Resumo de Algumas Derrotas Da India e Da China. Vol. 1. Lisboa: Imprensa Nacional, 1851.

Ligações Internas

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Categoria: Aula de Navegação de Goa

Ligações Externas

Autor(es) do artigo

Alice Santiago Faria

CHAM - Centro de Humanidades, FCSH, Universidade Nova de Lisboa

https://orcid.org/0000-0002-5006-4067

Financiamento

Fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto TechNetEMPIRE | Redes técnico-científicas na formação do ambiente construído no Império português (1647-1871) PTDC/ART-DAQ/31959/2017

DOI

https://doi.org/10.34619/aizm-wbu8

Citar este artigo

Faria, Alice Santiago. "Aula de Navegação de Goa", in eViterbo. Lisboa: CHAM - Centro de Humanidades, FCSH, Universidade Nova de Lisboa, 2022. (última modificação: 17/04/2024). Consultado a 20 de julho de 2024, em https://eviterbo.fcsh.unl.pt/wiki/Aula_de_Navega%C3%A7%C3%A3o_de_Goa. DOI: https://doi.org/10.34619/aizm-wbu8