Aula de Marinha de Goa

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Aula de Marinha de Goa
(valor desconhecido)
Outras denominações valor desconhecido
Tipo de Instituição Ensino Militar
Data de fundação 25 março 1784
Data de extinção outubro 1815
Paralisação
Início: valor desconhecido
Fim: valor desconhecido
Localização
Localização Goa, Índia
Antecessora Aula de Navegação de Goa

Sucessora Academia Militar de Goa


História

A Aula da Marinha de Goa surgiu na sequência de uma reorganização da Aula de Navegação de Goa empreendida por Frederico Guilherme de Sousa Holstein, Governador e Capitão-Geral da Índia entre 1779 e 1786, tendo começado as actividades lectivas no início de 1784.

Soares aponta 1780 como data para esta reorganização, indicando que seria "regida por Lente proprietário, e substituto, que ensinaram o Curso de Bezout dividido em duas partes, constando a primeira de princípios de Aritmética, Geometria, Trigonometria retilínea e esférica, e Álgebra; e a segunda, de Geografia, Astronomia e Pilotagem."[1] Não foi possível confirmar esta informação mas o começo efetivo das aulas terá acontecido somente no início de 1784 com a chegada à Índia de José Joaquim de Vasconcelos[2], que foi o responsável pela aula desde a sua criação, e se não, em todo o período do seu funcionamento, pelo menos em grande parte.

José Silvestre Ribeiro menciona o ano de 1784[3], como data em que a reorganização terá tido lugar, enquanto Sampaio e Miranda[4][5][6] referem a data exacta de 17 de Maio de 1784. Porém, foi a 25 de março de 1784, pouco depois da chegada a Goa de Vasconcelos, que o Governador e Capitão-Geral da Índia dava conta ao Conselho Ultramarino que José Joaquim de Vasconcelos tinha sido promovido ao posto de Tenente do mar e a Lente da Aula da Marinha[7]. Isso mesmo dá a entender Vasconcelos, na nota de abertura da obra, dedicada a Frederico Guilherme de Sousa, Lições de Navegação para uso dos educandos do Corpo Marinha Real de Goa, cuja cópia em dois volumes que existe no Arquivo Histórico Ultramarino em Lisboa. Refere "É unicamente a V. exª a quem devo dedicar a presente obra; e a quem legitamente pretence a censura dela (...) daqui são testemunhas os gigantescos passos, que durante o feliz governo de V. Exª tem dado a Marinha deste Estado. E ultimamente a V. Exª, a quem o seu mais firme estabelecimento a Academia, que serve a instruir os novos oficiais daquele corpo que Zelosos das honras, com que V. Exª os atende. Beneméritos procurão com efectivos estudos suprimir a falta das suficientes explicações de um Mestre, que só se empenha com zelo apreencher as justas intenções de V. Exª a quem consagra o mais profundo respeito e sincera obediência"[8] não deixando margens para dúvidas ter sido o Capitão-Geral da Índia o responsável pela sua criação e ele próprio, José Joaquim de Vasconcelos, o mestre desde o primeiro momento.

Para Sampaio, e como se pode perceber da sua Breve Noticia, foi uma aula mais estável e regular do que as que anteriormente tinham funcionado no território de Goa –  Aula de Navegação, Aula de Artilharia e Aula de Fortificação - tendo funcionado por mais de 30 anos, formando diversos pilotos e oficiais da Marinha[4]. Na listagem, anexa à notícia publicada, constam 118 alunos. O primeiro aluno fez o exame da primeira parte em Setembro de 1784 e recebeu a carta de habilitação passado no ano seguinte, a 24 de Abril de 1785; e o último em Outubro de 1815[5].

Desconhece-se se a aula terá continuado para além do final do ano de 1815, data em que o ultimo aluno foi examinado, mais concretamente até 1817 ano em que foi criada a Academia Militar de Goa e que reuniu numa só escola todas as aulas então existentes.  

Outras informações

Professores

José Joaquim de Vasconcelos terá sido o responsável pela aula, se não em todo o período do seu funcionamento pelo menos em grande parte, embora só apareça como fazendo parte do corpo de examinadores até 1789. No entanto, muitos outros nomes surgem como examinadores: José Alves de Sousa (1785-86), Raimundo António Rodrigues Ferreira (1785), João Batista Verquain (1785-1795), Diogo da Costa de Athaide Teive (1785-1792), José Joaquim de Sousa (1785-1795), José da Costa Athaide Teive (1790-1812), Joaquim Bernardino Biancardy (1791-1800), Maurício da Costa Campos (1798-1812), D. Lourenço de Noronha (1808-1815), João Vicente Rancoza (1814), Manuel da Costa Athaide Teive (1808-1812), Maurício da Costa Athaide Teive (1808), Joaquim Mourão Garcez Palha (1815), João Batista Alves Porto (1815).

Curricula

Segundo as Lições de Navegação para uso dos educandos do Corpo Marinha Real de Goa, escritas por José Joaquim de Vasconcelos, e como se pode confirmar nos quadros elaborados por Sampaio, a Aula da Marinha era dividida em três partes: a primeira era composta por aritmética, álgebra, geometria e trigonometria rectilínea, a segunda por trigonometria esférica e astronomia naútica e a ultima e terceira parte por pilotagem. O curso teria a duração de 3 anos e, embora pelas datas dos exames dos alunos, se possa concluir que cada parte corresponderia a um ano, na verdade, alguns submeteram-se a exame de partes diferentes com apenas intervalos de meses[9].

Os alunos faziam exames de cada parte em separado sendo-lhes sido atribuída a carta de habilitação da respectiva matéria examinada. Dos alunos que constam da lista, e com a excepção de quatro alunos - José Maria Lemos, José da Costa de Athayde Teive, Maurício da Costa Campos e Mathias Custódio Gonçalves -, todos fizeram o exame da primeira parte. No entanto nem todos faziam a segunda e terceira parte, sendo mesmo raros os que constam como tendo feito exame da 2ª parte, ou seja de trigonometria esférica e astronomia náutica.

As Lições de Navegação, obra conseguida través da recompilação das suas aulas[10], era por onde os alunos se guiavam  uma vez que "a maior parte dos marítimos deste pais que, não conhecendo mais que o nacional idioma, nelle não encontrão livros"[8]. Menciona ainda que apesar dos ensinamentos dos seus mestres da Academia Real da Marinha de Lisboa e dos autores franceses que seguia ter no "curso das lições elementares de navegação, acomodado as diferentes circunstancias do Paiz"[8]. Seguia o "curso de matemática de Bezout" e o seu tratado de navegação, sintetizando ou colocando de lado autores mais teóricos como Francisco Xavier Rego, considerando que estes se ocupavam muitas vezes com "questões e analogias abstratas que não servem, mias que se carregar a memoria dos principiantes."[10]. Referia o conceituado matemático Étinenne Bézout (1730-1783) e o autor da obra Tratado completo de navegaçaõ de Francisco Xavier Rego (c. 1764).

Notas

  1. Soares, Bosquejo Das Possessões Portuguezas No Oriente, I:201.
  2. Ferreira, “A Institucionalização do Ensino da Náutica Em Portugal (1779‐1807),” 103.
  3. Ribeiro, Historia dos Estabelecimentos Scientificos Litterarios e Artisticos de Portugal nos Sucessivos Reinados da Monarquia, vol 13, 1885, 313.
  4. 4,0 4,1 Sampaio, “Breve Notícia da Origem e Divulgação dos Estudos Superiores em Goa, por Methodos Europeus e em Língua Portugueza,” 111–12.
  5. 5,0 5,1 Sampaio, “Breve Noticia dos Individuos, que ficaram approvados desde 1784 até 1815 na Aula de Marinha”, Op. 116.
  6. Miranda, Quadros Históricos de Goa. Tentativa Histórica, II:88.
  7. Carta dirigida a Martinho de Melo e Castro, AHU_CU, caixa 364, doc. 59, 25/3/1784 apud Ferreira, “A Institucionalização do Ensino da Náutica em Portugal (1779‐1807),” 103.
  8. 8,0 8,1 8,2 Arquivo Histórico Ultramarino. José Joaquim de Vasconcelos, “Lições de Navegação para uso dos Educandos do Corpo da Marinha Real de Goa,” f.VI-VIII.
  9. Sampaio, João Mello de. “Breve Noticia dos Individuos, que ficaram approvados desde 1784 até 1815 na Aula de Marinha, organisada em 17 de Maio de 1784 pelo Capitão General D. Frederico Guilherme de Souza.” O Oriente Português II, no. 3 (1905): Op. 116
  10. 10,0 10,1 Ferreira, “A Institucionalização do Ensino da Náutica em Portugal (1779‐1807),” 102–5.

Fontes

Arquivo Histórico Ultramarino. José Joaquim de Vasconcelos. ‘Lições de Navegação para uso dos Educandos do Corpo da Marinha Real de Goa’, 1786. Bibl‐manuscritos, D. 26 e 27 (Cota antiga LR309).

Bibliografia

Ferreira, Nuno Martins. ‘A Institucionalização Do Ensino Da Náutica Em Portugal (1779‐1807)’. Dissertação de doutoramento, Academia de Marinha, 2017.

Miranda, Jacintho Caetano Barreto. Quadros Históricos de Goa. Tentativa Histórica. Vol. II. 2 vols. Margão: Typografia do Ultramar, 1864.

Ribeiro, José Silvestre. Historia dos Estabelecimentos Scientificos Litterarios e Artisticos de Portugal nos Sucessivos Reinados da Monarquia. Vol. 1872–1914. 19 vols. Lisboa: Typografia Real da Academia de Sciencias, n.d.

Sampaio, João Mello de. ‘Breve Notícia Da Origem e Divulgação Dos Estudos Superiores Em Goa, Por Methodos Europeus e Em Língua Portugueza’. O Oriente Português II, no. 3 (March 1905): 111–16.

Sampaio, João Mello de. ‘Breve Noticia dos Individuos, que ficaram approvados desde 1784 até 1815 na Aula de Marinha, organisada em 17 de Maio de 1784 Pelo Capitão General D. Frederico Guilherme de Souza’. O Oriente Português II, no. 3 (1905): Op. 116 (7 páginas).

Soares, Joaquim P. Celestino. Bosquejo das Possessões Portuguezas no Oriente ou Resumo de algumas derrotas da India e da China. Vol. I. Lisboa: Imprensa Nacional, 1851.

Ligações Internas

Para consultar as pessoas relacionadas com esta instituição, nomeadamente professores e alunos, siga o link: Categoria: Aula de Marinha de Goa

Ligações Externas

Autor(es) do artigo

Alice Santiago Faria

CHAM - Centro de Humanidades, FCSH, Universidade Nova de Lisboa

https://orcid.org/0000-0002-5006-4067

Financiamento

Fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto TechNetEMPIRE | Redes técnico-científicas na formação do ambiente construído no Império português (1647-1871) PTDC/ART-DAQ/31959/2017

DOI

https://doi.org/10.34619/k4rn-4ben

Citar este artigo

Faria, Alice Santiago. "Aula de Marinha de Goa", in eViterbo. Lisboa: CHAM - Centro de Humanidades, FCSH, Universidade Nova de Lisboa, 2022. (última modificação: 19/03/2024). Consultado a 24 de junho de 2024, em https://eviterbo.fcsh.unl.pt/wiki/Aula_de_Marinha_de_Goa. DOI: https://doi.org/10.34619/k4rn-4ben