Divisa

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O sinal que o homem nobre, o soldado, o amante ou qualquer outra pessoa trazem no escudo ou no vestido para se fazer conhecer e para se diferenciar dos outros.

As primeiras divisas foram as cotas de armas e estas cotas foram chamadas divisas porque eram compostas de umas tiras ou bandas de várias cores, divididas e cosidas umas com as outras e sobre elas se aplicavam as armas do cavaleiro, bordadas de ouro e prata com chapas de estanho batido e esmaltado; e daqui nasceu que que segundo as regras da armaria, ou brasão, não pode assentar-se metal sobre metal nem cor sobre cor; de maneira que se o escudo for de metal, a divisa há-de ser de cor, como nas armas do Reino de Leão, escudo de prata, leão vermelho; e Aragão, em escudo de ouro, quatro barras vermelhas. Pelo contrário, escudo de cor há-de ter divisa de metal como no Reino de Castelo, em escudo vermelho, castelos de ouro. Só não se observa esta regra nas armas dos reinos e cidade de Jerusalém, que são uma cruz de ouro em campo de prata, das quais hoje usa o reino de Nápoles e deviam compô-las assim aqueles príncipes que se acharam na conquista da Terra Santa, por reverência da Cruz Sagrada. Também as insígnias militares se chamaram divisas porque com elas se dividiam, separavam, distinguiam os cavaleiros do comum da gente.

Querem os franceses que divisa se derive do verbo francês Deviser, que vale o mesmo que falar familiarmente e conversar sobre alguma matéria, porque as divisas davam motivo para as práticas em que se falava na qualidade e nobreza das pessoas e nas diferentes facções dos cavaleiros. As primeiras divisas foram cifras ou caracteres e letras semeadas nas orlas ou bordas das cotas de armas ou nas bandeiras. E assim dos Reis de França, chamados Carlos, desde Carlos V até Carlos IX, a divisa era a letra K, e segundo escreve D. Rodrigo da Cunha Catálogo dos Bispos do Porto, I, parte. cap. 13. a divisa dos Reis Godos em Espanha eram as duas letras do alfabeto grego alfa e omega, com uma cruz vermelha no meio. E muito antes das ditas divisas, a divisa dos romanos eram quatro letras S. P. Q. R. que valem o mesmo que Senatus, Populus que Romanus. Não só caracteres mas também corpos foram divisas. A águia foi a divisa do Império Romano e hoje a trazem com duas cabeças os imperadores cristãos, aludindo à divisão do império oriental e ocidental, também a esfera que el-rei D. João II deu a el-rei D. Manuel aludia ao domínio do mundo. Houve outra casta de divisas que sem corpos constavam só de palavras como a de César Borja, que dizia Aut Caeser, aut nihil e algumas destas foram equívocas como a da casa de Senecay ou Senece que dizia In virtute et honore Senece. Finalmente chegaram as divisas e tanto que foram compostas de corpos juntamente e letras que eram sentenças inteiras com lacónica agudeza. O Cardeal henrique entrando a ser rei de Portugal na falta del-rei D. Sebastião tomou por divisa uma nau á vela que dizia Tuber et uber. Segundo refere Tipocio no seu livro dos símbolos heróicos. É celebre em Portugal a divisa del-rei D. João II do pelicano com a letra Pola-ley e pola-grey.

No seu princípio, as divisas não eram armas e brasões das famílias, como hoje se usam, nem das pessoas particulares passaram todas aos descendentes da mesma casa, mas das bandeiras e estandartes que serviam nas batalhas e actos públicos da guerra e da justiça se foram introduzindo nos escudos militares, tanto assim que para um soldado era ignomínia trazer o escudo branco e finalmente dos escudos dos soldados passaram para os escudos das armas da nobreza, com a galantaria, ordem e perfeição que hoje tem e as principais regras delas são que hão-de ser ou de corpo vivo e sensível como em Portugal, a águia dos Azevedos e o leão dos Silvas, ou de corpo vivo, ou vegetativo e não sensível como o pinheiro dos matos e as folhas de figueira dos Figueiroas, ou de corpo estante nem vivo nem sensível como a cruz dos Pereiras e o castelo dos Farias, ou se não de corpos inteiros, de alguma parte deles como cabeças de leões de serpentes ou pedaços de torres, etc. Só corpos humanos inteiros, pelas regras do brasão são excluídos do escudo das armas e por isso os Farias tiraram a divisa do corpo morto de Nuno Gonçalves de Faria, seu progenitor, que traziam ao pé do castelo de suas armas. Hoje nos termos do brasão divisa se diz da divisão de algumas peças honoríficas do escudo, quando uma faixa V. G. tem só a terça parte da sua largura ordinária chama-se faixa em divisa ou divisa tem mais nada, e num escudo não há-de haver mais que uma só divisa. Imediatamente mais abaixo acharás o que é divisa quando se toma por Empresa ou Emblema. Divisa na sua geral e amplíssima significação e nos sentidos acima declarados se pode chamar Symbolum, i. Neut. ou Insigne, is. neut. ou signum, i. (...)

Das divisas em que antigamente sem regra certa jogava a imaginação e o capricho dos que as inventavam, se fez com o tempo para os homens eruditos é uma espécie de arte e ciência em que se exercita o engenho com muito trabalho e pouco acerto porque dificilmente se observam bem todas as regras desta arte. Divisa a que outros chamam Empresa e que alguns confundem com Emblema, é uma pintura metafórica ou numa pintada e visível metáfora que tem corpo e alma. O corpo da divisa é a figura representada, e a alma é a palavra ou sentença que ao discreto dá a entender alguma coisa que a figura não declara. Na famosa divisa do imperador Carlos V, as duas colunas de Hércules são o corpo, e as palavras Plus ultra são a alma, e o que davam a entender é que depois de passar além dos montes Calpe e Ábila (que foram os limites da navegação de Hércules), havia de dilatar o império de Cristo até as mais remotas regiões do mundo. Manuel Tesauro que no seu livro intitulado Canocchi Aristotelico tratou amplamente esta matéria, distingue as divisas em perfeitas e perfeitíssimas, para as perfeitíssimas (...) se acham só na ideia, assim só poderá a imaginação conformar a ideia de uma perfeitíssima divisa; e esta (segundo o autor alegado), há-de ter mais de 30 circunstâncias, essenciais para a sua cabal perfeição das quais as principais são as que se encerram na definição que se segue. A divida perfeitíssima é uma agudeza ou argúcia fundada em metáfora de proporção, em forma de argumento poético de semelhança, significativa de um conceito particular e heróico por meio de uma figura real, nobre, única, bizarra, natural, mas que cause admiração nova, mas inteligível, fácil de representar e proporcionada ao escudo, que tenha propriedade aparente, activa e singular, apontada com letra aguda, breve, contraposta, equívoca e tomada de poeta clássico latino. Tão dificilmente se acham em uma divisa todas estas circunstâncias que segundo a crítica de Manuel Tesauro, nenhuma divisa (de tantas que se fizeram) merece o título de perfeitíssima, tanto assim que nas divisas que até agora foram mais celebradas no mundo, acha o dito autor alguma circunstância que as faz defeituosas. Para a composição da divisa perfeita, as leis que comummente se dão são estas: 1. que a pintura seja (quanto mais poder ser) simples e não composta, porque muitas figuras são boas para emblemas ou enigmas; 2. que não seja figura tão despida de erudição que qualquer a possa facilmente inventar, nem tão escura que necessite de interpretação; 3. que nunca se represente o corpo humano inteiro, porque só alguma parte dele, como a mão, o coração, os olhos, etc. se podem tolerar na divisa; 4. que a letra não seja verso inteiro, mas hemistício, tomado de algum poeta, ou novamente composto; 5. que o corpo e a alma id est a figura e a letra, sejam tão misteriosamente alegóricos que um não seja declaração de outro e que não nomeiem o que indicam, etc. Para evitar a equivocação de symbolum com outra espécie de divisas, esta se poderá chamar em latim Pictura, cuius sensus ou significatio indicatur ou innuitur verbo, aut brevi sententia- Bem podem tomar por divisa de seu amor a fineza natural do Heliotrópio. Vieira, Tom. I. pag. 577[1].

Notas

  1. Bluteau, Vocabulario Portuguez e latino (Tomo III: Letra D-EYC), 264-266.

Bibliografia e Fontes

  • Bluteau, Rafael. Vocabulario portuguez e latino, aulico, anatomico, architectonico, bellico, botanico, brasilico, comico, critico, chimico, dogmatico, dialectico, dendrologico, ecclesiastico, etymologico, economico, florifero, forense, fructifero... autorizado com exemplos dos melhores escritores portugueses, e latinos... Tomo III: Letra D-EYC. Coimbra: Collegio das Artes da Companhia de Jesu, 1713.