Real Fábrica das Sedas

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Real Fábrica das Sedas
(valor desconhecido)
Outras denominações Fábrica das Sedas de Lisboa, Companhia da Fábrica das Sedas, Real Fábrica das Sedas do Rato, Real Fábrica das Sedas de Lisboa
Tipo de Instituição Profissional, Ensino Civil
Data de fundação 13 fevereiro 1734
Data de extinção 6 agosto 1833
Paralisação
Início: valor desconhecido
Fim: valor desconhecido
Localização
Localização Prazeres, Lisboa,-
Início: 1734

Localização Real Fábrica das Sedas, Lisboa,-
Início: 1741
Fim: 06 de agosto de 1833
Antecessora valor desconhecido

Sucessora valor desconhecido


História

A Companhia da Fábrica das Sedas, e mais tarde Real Fábrica das Sedas (1757)[1], foi constituída em 13 de Fevereiro de 1734, data da autorização concedida a Roberto Godin, francês, em resultado da sua súplica a D. João V, com fim de estabelecer "fábricas de lavrar sedas com ouro, prata, e matizes, e de outras diferentes qualidades"[2]. A constituição da Real Fábrica enquadra-se no segundo surto de industrialização portuguesa (1720-1740) sustentado na iniciativa privada de negociantes portugueses e estrangeiros, bem como na capacidade técnica de artífices estrangeiros imigrados no reino[3]. A autorização dada a Roberto Godin determinava o monopólio sobre a constituição de fábricas semelhantes no Reino, por um período de 20 anos, sem que qualquer outra pessoa pudesse "sem intervenção, ou licença do suplicante estabelecer de novo neste reino, e suas conquistas alguma outra fábrica de semelhantes manufaturas"[4]. Entre estas manufaturas incluía-se igualmente a produção de seda com "veludos, damascos, primaveras, gorgorões lizos, e lavrados, brocateis, chamalotes, setins, peluças, nobrezas, tafetás, meias, galões de ouro, prata, ou de seda com linha"[4]. Dada a dimensão alcançada pela Real Fábrica, esta "é, por norma, considerada pela literatura da especialidade como a maior manufatura industrial do seu tempo"[1].

A autorização régia estabelecia ainda a isenção, por um período de 10 anos, do pagamento de direitos sobre toda a seda importada de dentro ou fora do reino para os trabalhos da Real Fábrica, com preferência sobre as primeiras, bem como, sobre quaisquer instrumentos ou materiais necessários à sua construção e produção[5]. De igual forma e por período de 10 anos, as manufaturas produzidas na Real Fábrica e consumidas no reino estavam isentas de direitos[6]. Esta condição traduz uma política protecionista do mercado interno ao procurar que "o preço fosse mais acessível para o consumo local e, ao mesmo tempo, competitivo em relação às manufaturas de origem estrangeira". O mesmo não se verificava para a exportação, a qual ao encontrar-se sujeita ao pagamento de direitos "estancava a possibilidade da entrada de riquezas estrangeiras para Portugal"[7]. Entre as condições ao estabelecimento da Fábrica de Sedas observe-se ainda a obrigação de se contratarem aprendizes portugueses por forma a "reduzir com o tempo a dependência da técnica estrangeira"[8]. A Real Fábrica ficava sujeita à fiscalização do Conselho de Fazenda, devendo ser observado o regulamento próprio[9].

Verificada a incapacidade de Roberto Godin em apresentar todo o capital necessário à constituição da Real Fábrica, foi constituída uma sociedade comercial que reuniu os investimentos de "Manuel Nunes da Silva Tojal, Manuel de Sande de Vasconcelos, Francisco Xavier Ferraz de Oliveira, João da Costa Carneiro, Manuel da Costa Pinheiro, Domingos da Silva Vieira, D. Gabriel António Gomes, Cristiano Stockler, e Domingos da Cruz Lisboa". Foi lavrada escritura em 4 de Outubro de 1734, com um financiamento de 60:400$000 réis[10][11]. Era estabelecida uma direcção composta por três membros encarregues da compra das matérias-primas, da venda das peças, da vinda de artífices, do pagamento de salários e do balanço financeiro da Fábrica[12]. Assinala-se a colaboração de Luís Terrier, fabricante francês, na constituição da Fábrica, em particular, na armação de diversos teares, na sua participação na administração e na instrução de aprendizes, até 1783, data do seu falecimento[13]. Entre 1738 e 1770, também o fabricante francês Estevão Giungú se associou à Real Fábrica pela armação de teares de damasco de ouro, feito que levou à sua nomeação para contramestre[14].

No período da gestão privada a Fábrica das Sedas conheceu três direções. Entre 5 de Outubro de 1734 a 31 de Janeiro de 1745[15], a direcção foi composta por Manuel Nunes da Silva Tojal, Francisco Ferraz de Oliveira e Domingos da Silva Vieira[16]. Desta primeira direcção destaca-se o acumular de "grandes perdas; de forma que no fim dela os materiais, e fazendas existentes, e as dívidas ativas apenas compensavam o dinheiro tomado a juro"[15]. A situação financeira débil explica-se pelas dívidas contraídas para a construção do edifício no Rato, para a aquisição da matéria-prima e de equipamentos, bem como na contratação de artífices[17]. Acresciam ainda dificuldades na obtenção da matéria-prima no mercado interno, resultando na dependência da importação de seda espanhola. Para a resolução dessa questão, em 1741, constituía-se uma companhia comercial com o objetivo de facilitar o acesso ao mercado de sedas de Macau "usufruindo das mesmas isenções e privilégios conferidos às naus da Índia"[18]. Não obstante, a medida não surtiria o efeito necessário dada a indisponibilidade financeira da Fábrica na aquisição, verificando-se apenas o envio de dois navios a Macau[19]. Entre 1 de Fevereiro de 1745 a 31 de Outubro de 1747[15], a direcção foi composta por Manuel de Sande Vasconcelos, Cristiano Stockler e Manuel Nunes da Silva Tojal, destacando-se "a maior incidência de conflitos internos, especialmente entre os membros de sua diretoria", bem como com Roberto Godin[20]. Neste período verificou-se a compra de seda crua em Bragança e Lamego, e a importação, novamente, de Espanha, bem como da China, Itália, Holanda e França. Manteve-se a problemática da acumulação de dívidas como instrumento de capitalização da Fábrica[21]. Entre 1 de Novembro de 1747 a 15 de Junho de 1750, a direcção foi composta por Rodrigo de Sande Vasconcelos, Manuel Nunes da Silva Tojal e Francisco Ferreira da Silva[22]. Neste período, a Real Fábrica "se achava na última decadência, por falta de fundos"[15] e a direcção "parecia estar de 'mãos atadas' diante de suas dificuldades", nomeadamente a incapacidade de contrair novos empréstimos[22], de pagar salários e adquirir matéria prima[23]. Perante estas circunstâncias destaca-se a súplica de Roberto Godin ao poder régio, nomeadamente ao príncipe e futuro rei D. José I, para intervir e auxiliar financeiramente a Real Fábrica[24].

A par da falta de fundos, o estado de decadência da Fábrica de Sedas no período da gestão privada explica-se, entre outros factores, pela incapacidade de gestão dos seus diretores e o conflito de interesses entre os mesmos, a falta de técnicos nacionais especializados, a dificuldade no acesso a tecnologias e a forte concorrência internacional no mercado das sedas[25]. A incipiente capitalização que marcou a fundação e evolução da Real Fábrica no período de gestão privada foi uma característica típica do segundo surto industrialização, que, juntamente com a improvisação das iniciativas e a falta generalizada de planeamento das mesmas, explica as limitações postas ao desenvolvimento industrial que se pretendera alcança[26].

Em 1749, era expedido um aviso pelo Secretário de Estado, Marco Azevedo Coutinho, com fim de levar os diretores da Real Fábrica a assinarem termo com a obrigação "de proverem dentro de 30 dias a fábrica de tudo o necessário". A quebra dessas condições teria por consequência a entrega da fábrica, dos seus instrumentos e da fazenda "a quem pertencesse, e [pudesse] dispor da conservação, e aumento da mesma fábrica"[27]. Não se verificando a disponibilidade financeira indispensável para reforçar o capital da Fábrica, no início de 1750, procedeu-se à avaliação e inventariação dos instrumentos e fazendas simples da Fábrica[28][29], da qual se concluiu que apenas existia seda para seis semanas de fabrico, uma terça parte dos teares[23], e um montante total de dívida acumulada na ordem dos 86:640$700 réis[30]. Em consequência, a Real Fábrica de Sedas transitou para a posse da Real Fazenda e, por decreto de 14 de Maio de 1750[31], foi concessionada a Vasco Lourenço Veloso, negociante em Lisboa e interveniente na avaliação à Fábrica, num modelo de "administração pública indireta"[32]. Durante esta gestão houve a tentativa de melhorar os quadros técnicos da Fábrica com a contratação de artífices estrangeiros como o tintureiro francês, Luís La Chapelle[33]. No final da administração de Vasco Veloso, a Fábrica continuava a apresentar perdas de capital em função da acumulação de dívidas da Real Fazenda aos acionistas, as quais não foram pagas durante aquela administração e que totalizaram os 50:960$767 réis[28]. As perdas financeiras explicam-se também devido à perda de matérias-primas durante o terramoto de 1 de Novembro de 1755[34], ainda que em virtude do mesmo a Real Fábrica tenha sido subsidiada pelo Cofre do Donativo dos 4%, criado para a recuperação da cidade de Lisboa[35]. Por outro lado, a posição monopolística da Real Fábrica foi sendo desafiada por um movimento crescente de contrabando de sedas estrangeiras tanto em Portugal como no território brasileiro[36].

A partir de 1757, terminada a concessão a Vasco Veloso, a Fábrica das Sedas conheceu um período de gestão direta por parte do poder régio, sendo adotada a designação de Real Fábrica das Sedas. Sob orientação de Sebastião José de Carvalho e Melo, a sua administração transitou para a recém-criada Junta do Comércio, "organismo dinamizador da obra económica pombalina"[37], e foi dotada de Estatutos próprios, ou "disposições gerais estatutárias inéditas para este empreendimento industrial"[1], confirmados por alvará régio de 6 de Agosto de 1757[38][39]. O funcionamento da Real Fábrica era igualmente regulado pelo Regimento Secretíssimo da Real Fábrica das Sedas, com igual data dos Estatutos, que definia, entre outros assuntos sigilosos, os preços das matérias-primas, o preço de venda das manufaturas e, os padrões, desenhos e projetos de fabrico[40]. A direção era composta por quatro diretores, dois dos quais pertencentes à Junta do Comércio e os restantes dois à Junta da Administração da Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão, "por onde se dava saída às manufaturas da fábrica"[41]. Foram providos nos cargos de directores João Moreira Leal, João Rodrigues Monteiro, substituído em 1768 por Caetano Alberto Ferreira, Manuel Ferreira da Costa e José Francisco da Cruz Alagoa, respectivamente[42]. Em 1758, acresceria um quinto lugar de diretor ocupado por Roberto Godin[43], afastado da gestão da Fábrica desde a administração de Vasco Veloso[28]. A partir de 1768 os deputados da Companhia de Pernambuco e Paraíba poderiam também ser considerados para a direcção da Real Fábrica[44]. Nesse ano, a composição da direção foi alterada: Caetano Alberto Ferreira e João Luís de Sousa Sayão pela Junta do Comércio, Félix Teixeira de Matos pela Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba, e Manuel Ferreira da Costa pela Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão; acrescia ainda José de Sousa e Abreu, vice-provedor da Junta do Comércio[45]. Em função da morte de Roberto Godin e da indisponibilidade de João Sayão, ocupou lugar na direcção António Martins Bastos e, entre 1769 e 1771, Luís de La Chapelle, substituído por Alberto Jacqueri de Sales, lente da Aula do Comércio. A partir de 1776, a estrutura de direcção da Real Fábrica passou a consignar um lugar de "Primeiro Diretor" ou presidente, por tempo de três anos, que recaiu em Domingos de Gamboa e Liz[46].

Segundo os Estatutos de 1757, a Real Fábrica mantinha a isenção de direitos sobre as matérias-primas e as manufaturas produzidas. Definia-se a associação daquela aos restantes teares da cidade de Lisboa, constituindo uma corporação que estava incumbida de determinar o número de teares existentes e os limites à sua produção, sendo que "todos os teares numerados passariam a usufruir dos privilégios concedidos à Real Fábrica das Sedas"[47]. Foram integradas na Real Fábrica as corporações dos Fabricantes do Largo de Lavor, e, posteriormente, do Estreito e do Largo Liso[48]. De forma a auxiliar os artífices incorporados, a Real Fábrica deveria ceder um tear montado a cada um, ou facilitar a aquisição de instrumentos ou matéria-prima, definindo-se, em ambos os casos, a restituição posterior do capital dispendido aquando da venda da manufatura junto da Fábrica[49][50]. Por outro lado, com o fim de "constituir um sistema monopolista local, centralizando a fabricação e comercialização das sedas unicamente nas mãos da Real Fábrica das Sedas", estabeleceu-se que toda a seda produzida no reino fosse vendida, pelo mesmo preço, ao Armazém Geral da Administração da Real Fábrica das Sedas[51]. A partir da resolução de 1811 as corporações foram extintas "ficando livre a cada um dos indivíduos (...) a faculdade de tecer, ou mandar tecer seda como, quando, e da forma que lhes parecesse", ainda que na obrigação de matricularem os produtos na Real Fábrica[52].

A partir de 1770 e até 1777, data do falecimento de D. José I, a Real Fábrica iniciou um período de prosperidade, tendo consolidado "uma posição cimeira na produção das sedas"[53] e sustentado "o século de ouro da nossa indústria, e principalmente das manufaturas de seda em Lisboa"[54][55] como referenciou Acúrsio das Neves. O período de prosperidade terminou com o início do reinado de D. Maria I, durante o qual se verificou a diminuição da "ação do Governo, [tendo-se suspendido] também os subsídios pecuniários para as fábricas"[56]. Em 1777, a direção da Real Fábrica era extinta, ficando esta superintendida pela nova Junta da administração das Fábricas do Reino e obras das Águas Livres. Presidida pelo Inspector Geral, a atuação da Junta seguiu "uma nova estratégia por parte da Coroa, no sentido de alienar as fábricas menos rentáveis"[57], pelo que procedeu à redução das fábricas anexas e dos "estabelecimentos próprios da fábrica principal, como o da manufatura das meias"[58], compatibilizando-a com o diminuto orçamento de que passara a dispor e as dívidas que acumulara.

Em 1786, o relatório da Junta da administração das fábricas acusava o decaimento da Real Fábrica das Sedas[59]. Dois anos depois, a Junta da administração era extinta e reestabelecidas a antiga Junta do Comércio, sob designação Real Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação, e a direção da Real Fábrica, constituída juntamente com a administração das obras de Águas Livres e da Real Fábrica das Cartas de Jogar, sob o título direcção da Real Fábrica das sedas, e Obras de Águas Livres, a qual "salvou a fábrica do precipício [e] deu-lhe um grande impulso"[60][61]. Compunham esta direcção, no lugar de presidente, o director da Junta do Comércio, e, na qualidade de directores, Teutónio Gomes de Carvalho, João Roque Jorge, Maurício José Cremer Vanzeller e António Rodrigues de Oliveira[62].

A partir de 1823, a Real Fábrica era novamente subsidiada pelos poderes públicos e, em 1827, mantinha-se sem aumento de dívida[63]. Não obstante, em 6 de Agosto de 1833, a direção da Real Fábrica de Sedas e Obras de Águas Livres era demitida por decreto[64]. Adotamos esta data como a da extinção da instituição uma vez que, por portaria de 27 de Julho de 1835, foi ordenada a venda dos bens da Real Fábrica em hasta pública[65].

Outras informações

Inicialmente estabelecida no "sítio da Fonte Santa", na localidade dos Prazeres, a Real Fábrica transitaria primeiro para a "horta do Bedió", na rua de S. Bento, e, em 1741, para o "subúrbio do Rato", em edifício construído entre 1735 e 1740. Neste empreendimento foi dispendido metade do capital disponível, "inviabilizando futuros investimentos em suas atividades de produção", o que explica as dificuldades financeiras verificadas nas primeiras décadas do funcionamento da Fábrica[66][67].

A evolução da Real Fábrica determinou que "de uma simples unidade fabril monotípica" se convertesse num "centro pluricelular, coordenador e distribuidor das actividades de numerosas oficinas"[68]. Para isso contribuiu a construção de casas no bairro das Águas Livres, a serem habitadas pelos artífices da Real Fábrica, e posterior extensão ao bairro das Amoreiras. A conjugação destas habitações e da Fábrica na mesma geografia levou a que, segundo José Acúrsio das Neves, tivesse sido designada pelo Marquês de Pombal como "Real Colégio de manufaturas nacionais"[69], considerando também a instrução generalizada em todas as fábricas sob a gestão da Real Fábrica[70]. A construção das casas onde estava prevista a instalação de teares procurou aumentar a produção sem originar novas despesas para a Real Fazenda, a verificar-se com a extensão do edifício do Rato, ou a aquisição de novos prédios: "Tratava-se, portanto, de uma estratégia de economia, com vistas a propiciar a expansão da atividade manufatureira da seda no reino e, ao mesmo tempo, evitar quaisquer maiores problemas financeiros que poderiam arruinar de vez o estabelecimento"[71][72]. As habitações albergaram igualmente diversas fábricas e oficinas anexas, reforçando o "papel de centralização da política manufatureira da governação de Pombal" de que se revestia a Real Fábrica que "agregava e administrava os novos estabelecimentos fabris do reinado de Dom José I"[73]. Ao longo da sua existência a Real Fábrica teve anexas diversas fábricas e oficinas: duas tinturarias, uma fábrica de urzela e uma de calandreira[74], bem como de pentes de marfim, de relojoaria, de serralharia, de botões, de caixas de cartão e verniz, de fundição de metais, de louça, de chapéus, de limas[42], de tapeçaria, de cutelaria e de meias de lã[75]. As instalações de tinturaria, estabelecidas aquando da instalação da Fábrica, foram dirigida por Luís La Chapelle a partir de 1753, e, posteriormente, deslocadas para a Quinta do Sargento mor, junto à ribeira de Alcantara[76].

A produção da Real Fábrica era assistida por aprendizes, preferencialmente portugueses, que, a partir de 1757, estavam obrigados a permanecer por um período de cinco anos sob orientação dos seus mestres[77].

A dinamização da produção da Real Fábrica, no período de gestão direta pela Real Fazenda, concretizou-se por novos investimentos no "processo de actualização dos processos de fabrico e da introdução de novos teares e de novos tipos de tecidos, com desenhos e padrões que fizessem deles artigos atractivos para o público"[78]. Com esse fim, procedeu-se à contratação de novo debuxador (desenhador) que reunisse conhecimentos suficientes sobre o funcionamento dos teares, a produção industrial de tecidos e a aplicação do desenho a esses processos. Em 1763-1764, vindo de Lyon, "principal centro de sericultura da Europa setecentista", João Maria Policarpo May era contratado para debuxador da Real Fábrica[79]. Sucedeu a Diogo Martins Vilela, debuxador da Real Fábrica durante a gestão de Vasco Lourenço, que foi colocado ao serviço do Paço Real. Martins Vivela terá sido aprendiz de Alezon, que José Acúrsio das Neves nomeou como "o primeiro da Real Fábrica na sua origem"[80].

João Policarpo May estava igualmente incumbido de fundar uma Aula de Debuxo onde se reunissem "o domínio das técnicas industriais e o engenho para a criação de desenhos". À semelhança da instrução de estucadores - cuja aula foi criada com a contratação, em 1766, de João Grossi, vindo de Turim -, carpinteiros e pedreiros, a frequência da aula de debuxo era obrigatória para exercer o ofício e, mais tarde, dirigir a oficina ou o tear[79]. Os aprendizes eram examinados pela direcção da Real Fábrica[81]. A Aula de Debuxo terá tido início logo em Abril de 1764, sendo dotada de regulamento próprio em 1788, no qual se definiam horários de funcionamento, a seleção dos aprendizes, a sua frequência e avaliação[82]. O funcionamento da Aula foi influenciado pela decadência da Real Fábrica correndo o risco de ser interrompido, o que veio a suceder com a abolição em 18 de Junho de 1800, uma vez considerar-se "desnecessária, em razão de irem decaindo da moda as antigas sedas de ricos lavores". A Aula foi reinstituída em 1811 com novo regulamento[83], e ter-se-á mantido em funcionamento até 1830-1831 de acordo com o livro de matrículas de aprendizes[84]. Entre os aprendizes da Aula, Acúrsio das Neves destacou pelas suas habilidades Joaquim Pedro Sanches e José António Mascarenhas. Após a morte de João Policarpo May em 1794, Joaquim Sanches foi colocado no lugar de professor no ano seguinte, e, em 1796, José Francisco da Costa no lugar de professor substituto. Com o reestabelecimento da aula, Joaquim Pedro Sanches manteve-se como professor até ao seu falecimento em 1813. Foi sucedido no lugar de debuxador por Silvério Rodrigues Nobre e Manuel Barbosa, sem que se saiba se leccionaram na aula de debuxo[83].

A partir da gestão de Vasco Lourenço Veloso e da detenção da Fábrica pela Real Fazenda, foram tomadas medidas para atenuar a falta de matéria-prima e a dependência face ao estrangeiro na sua obtenção. No espaço colonial foram realizadas tentativas para desenvolver o cultivo de seda, nomeadamente no Maranhão e na Bahia, com a remessa de sementes de amoreira a partir de Portugal e através da Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão[85]. Em Portugal, foram adotadas medidas semelhantes de incentivo à produção nacional de seda. Em 1752, o cultivo generalizado da amoreira era permitido a todos que o entendessem, sendo proibida a exportação de seda em rama, fio ou casulo. Sublinhe-se também o envio de diversas circulares a todo o reino que promoviam a cultura das amoreiras, a criação do bicho-da-seda e a produção do fio de seda, bem como a remessa gratuita de sementes pela Real Fábrica e a fixação de preços de venda da seda crua e casulos. Estas medidas tiveram um efeito positivo demonstrado pelo aumento das indústrias de tecelagem a partir da década de 1770[86]. Por outro lado, procurou-se disseminar as técnicas do método de fiar a seda contactando-se para esse efeito a francesa Joanna Serié, presente em Lisboa, e Pedro Soares de Alcântara, ficando este responsável pelo ensinamento nas províncias da Beira e Trás-os-Montes[87].

Entre 1757, data da incorporação da Fábrica na Real Fazenda, e 1777, a contabilidade do empreendimento foi assegurada pela contadoria da Real Fábrica das Sedas. Esta era dirigida pelo guarda-livros principal, que era coadjuvado por oficiais e praticantes de contabilidade. Nesse período, ocuparam o lugar de guarda-livros principal: o alemão Conrado Bartolomeu Riegge entre 1757 e 1765, cuja nomeação se justificava pela "circunstância de os portugueses (...) possuírem saberes muito escassos no que se pretendia com a escrituração por partidas dobradas, muito particularmente porque ainda não havia sido fundada me Portugal a primeira escola de contabilidade (...) a Aula do Comércio de Lisboa"; Joaquim José dos Santos entre 1765 e 1769; António Joaquim Firmo de Sousa entre 1769 e 1771; e Luciano António Teixeira Negrão entre 1771 e 1777. Os três últimos apresentavam já diploma pela Aula do Comércio de Lisboa[88].

A Real Fábrica das Sedas estabeleceu uma ligação consistente com o mercado brasileiro numa dupla vertente: a aquisição de matérias-primas, goma copal e cultivo de amoreiras, e pela exportação das manufaturas produzidas. A relação com o espaço ultramarino era concretizada através de "agentes mercantis (...) das Companhias monopolistas de Pombal, a Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão, e a Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba [e] em menor parcela, através de correspondentes sediados em algumas praças do Brasil". As companhias gerais destacaram-se como o "principal canal mercantil das sedas produzidas na fábrica do Rato", em particular, a de Pernambuco e Paraíba pelo maior volume transacionado[89]. No período da primeira direcção realizaram-se 10 carregamentos destinados, em particular, às praças mercantis do Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia. Apesar de "pouco expressivo" durante aquela direcção, o mercado brasileiro permitiu diminuir as dificuldades financeiras da Fábrica[90]. Novamente, durante a terceira direcção os mercados brasileiros foram vistos como solução para a difícil situação financeira da Fábrica, ainda que apenas tenham sido remetidos dois carregamentos para o Rio de Janeiro e Pernambuco[91]. Durante a gestão de Vasco Lourenço Veloso "foram criadas novas redes comerciais (...) em que figuravam outros negociantes", distintos dos que haviam negociado com a Real Fábrica durante o período da gestão privada, entre os quais aparecem reforçados os contatos com o Rio de Janeiro e, em particular, com a Casa de Negócios Faustino de Lima e Companhia. Na relação comercial com a América portuguesa surgiram dificuldades colocadas pelos direitos a pagar na exportação, que ao aumentarem o preço final tornavam difícil a concorrência com as sedas estrangeiras[92].

Notas

  1. 1,0 1,1 1,2 Duarte, Gonçalves, Góis, "Demonstração do Estado da Contadoria da Real Fábrica das Sedas", 33.
  2. Neves, Noções historicas, economicas, 26.
  3. Luz, "A Real Fábrica das Sedas de Lisboa", 53-54.
  4. 4,0 4,1 Neves, Noções historicas, economicas, 27.
  5. Neves, 30; 33.
  6. Neves, 32.
  7. Luz, "A Real Fábrica das Sedas de Lisboa", 101-102.
  8. Luz, 102.
  9. Neves, Noções historicas, economicas, 35-36.
  10. Neves, 48-49.
  11. Luz, "A Real Fábrica das Sedas de Lisboa", 103-104.
  12. Luz, 104-105.
  13. Neves, Noções historicas, economicas, 50-51.
  14. Neves, 51-52.
  15. 15,0 15,1 15,2 15,3 Neves, 52.
  16. Luz, "A Real Fábrica das Sedas de Lisboa", 116.
  17. Luz, 124.
  18. Luz, 127.
  19. Luz, 125-130.
  20. Luz, 134.
  21. Luz, 136-138.
  22. 22,0 22,1 Luz, 141-142.
  23. 23,0 23,1 Neves, Noções historicas, economicas, 56.
  24. Luz, "A Real Fábrica das Sedas de Lisboa", 144-149.
  25. Luz, 153-155.
  26. Luz, 55-56.
  27. Neves, Noções historicas, economicas, 54.
  28. 28,0 28,1 28,2 Duarte, Gonçalves, Góis, "Demonstração do Estado da Contadoria da Real Fábrica das Sedas", 36.
  29. O inventário da Real Fábrica, datado de 1766, que se inclui o número e qualidade dos teares, encontra-se disponível em Neves, Noções historicas, economicas, 65-66.
  30. Luz, "A Real Fábrica das Sedas de Lisboa", 153.
  31. Neves, Noções historicas, economicas, 59-61.
  32. Luz, "A Real Fábrica das Sedas de Lisboa", 157.
  33. Luz, 170-171.
  34. Neves, Noções historicas, economicas, 73.
  35. Magalhães, "A Real Fábrica das Sedas", 70.
  36. Luz, "A Real Fábrica das Sedas de Lisboa", 166-167.
  37. Duarte, Gonçalves, Góis, "Demonstração do Estado da Contadoria da Real Fábrica das Sedas", 39.
  38. Neves, Noções historicas, economicas, 82.
  39. A indicação das produções realizadas pela Real Fábrica entre 1757 e 1769 pode ser consultada em Neves, 100-104.
  40. Luz, "A Real Fábrica das Sedas de Lisboa", 213-214.
  41. Neves, Noções historicas, economicas, 91.
  42. 42,0 42,1 Duarte, Gonçalves, Góis, "Demonstração do Estado da Contadoria da Real Fábrica das Sedas", 40.
  43. Neves, Noções historicas, economicas, 83-84.
  44. Luz, "A Real Fábrica das Sedas de Lisboa", 259.
  45. Luz, 260.
  46. Luz, 260-261.
  47. Luz, 228.
  48. Magalhães, "A Real Fábrica das Sedas", 77.
  49. Neves, Noções historicas, economicas, 88; 90.
  50. Luz, "A Real Fábrica das Sedas de Lisboa", 229-230.
  51. Luz, 230.
  52. Neves, Noções historicas, economicas, 143.
  53. Magalhães, "A Real Fábrica das Sedas", 61.
  54. Neves, Noções historicas, economicas, 107.
  55. O balanço da produção entre 1770 e 1775 pode ser consultado em Neves, 110.
  56. Neves, 288.
  57. Magalhães, "A Real Fábrica das Sedas", 61.
  58. Neves, Noções historicas, economicas, 303-304.
  59. Neves, 315-319.
  60. Neves, 326.
  61. Os movimentos de venda pela Real Fábrica podem ser consultados em Neves, 336-339.
  62. Neves, 327.
  63. Neves, 394-395.
  64. Magalhães, "A Real Fábrica das Sedas", 62.
  65. Magalhães, 73.
  66. Magalhães, 49-50.
  67. Luz, "A Real Fábrica das Sedas de Lisboa", 115.
  68. Atente-se na multiplicidade de produtos manufaturados nas dependências da Real Fábrica: "pentes em marfim, caixas de papelão, cartas de jogar, vernizes, lacres, louça, chapéus, relógios, botões, lenços, sinos, cutelaria, limas, tapeçarias, objectos e peças de serralharia, etc". Magalhães, "A Real Fábrica das Sedas", 69-70.
  69. Neves, Noções historicas, economicas, 95.
  70. Magalhães, "A Real Fábrica das Sedas", 75.
  71. Luz, "A Real Fábrica das Sedas de Lisboa", 241.
  72. Podem ser consultadas mais informações sobre a concretização deste complexo habitacional e oficinal em Luz, 240-259.
  73. Luz, 257.
  74. Magalhães, "A Real Fábrica das Sedas", 159-160.
  75. Luz, "A Real Fábrica das Sedas de Lisboa", 255-256.
  76. Magalhães, "A Real Fábrica das Sedas", 148.
  77. Neves, Noções historicas, economicas, 36; 89.
  78. Santos, "João Policarpo May. Debuxador e Lente", 205.
  79. 79,0 79,1 Santos, 206.
  80. Neves, Noções historicas, economicas, 153.
  81. Neves, 154-155.
  82. Santos, "João Policarpo May. Debuxador e Lente", 207-208.
  83. 83,0 83,1 Neves, Noções historicas, economicas, 155-156.
  84. Santos, "João Policarpo May. Debuxador e Lente", 208.
  85. Luz, "A Real Fábrica das Sedas de Lisboa", 164.
  86. Luz, 322-328.
  87. Luz, 333-334.
  88. Duarte, Gonçalves, Góis, "Demonstração do Estado da Contadoria da Real Fábrica das Sedas", 46.
  89. Luz, "A Real Fábrica das Sedas de Lisboa", 353; 392.
  90. Luz, 131-133.
  91. Luz, 142.
  92. Luz, 162-163.

Bibliografia

Duarte, Cecília, Gonçalves, Miguel e Cristina Góis. "Demonstração do estado da contadoria da Real Fábrica das Sedas, a maior empresa industrial de Portugal no Século XVIII (período 1757-1796)". De Computis - Revista Española de Historia de la Contabilidad 18, no. 2 (Dezembro 2021): 31-56.

Luz, Alex Faverzani da. "A Real Fábrica das Sedas de Lisboa: administração, política econômica e comércio no Atlântico Sul (1734-1777)". Tese de Doutoramento, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2018.

Magalhães, Alberto da Conceição. "A Real Fábrica das Sedas e o comércio têxtil com o Brasil: 1734-1822." Dissertação de Mestrado, Universidade de Lisboa, 2010.

Neves, José Acúrcio. Noções historicas, economicas e administrativas sobre a producção, e manufactura das sedas em Portugal, e particularmente sobre a Real Fabrica do suburbio do Rato, e suas anexas. Lisboa: Impressão Régia, 1827.

Santos, Celso Francisco. "João Policarpo May. Debuxador e Lente da Aula de Desenho da Real Fabrica das Sedas." Revista da Faculdade de Letras. Ciências do Património 1, no. 1 (2002): 203-209.

Ligações Internas

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Categoria: Real Fábrica das Sedas

Ligações Externas

Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Fundo documental da Real Fábrica das Sedas.

Comércio, Junta do. Estatutos da Real Fabrica das Sedas, Estabelecida no Suburbio do Rato. Lisboa: Officina de Miguel Rodrigues, 1757.

"Real Fábrica das Sedas (Fábrica das Sedas do Rato)". Câmara Municipal de Lisboa.

Teresa Vale e Carlos Gomes, "Real Fábrica das Sedas". Direcção-Geral do Património Cultural.

Autor(es) do artigo

João de Almeida Barata

https://orcid.org/0000-0001-9048-0447

Financiamento

Fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto TechNetEMPIRE | Redes técnico-científicas na formação do ambiente construído no Império português (1647-1871) PTDC/ART-DAQ/31959/2017

Apoio especial “Verão com Ciência 2022” da UID 4666 – CHAM — Centro de Humanidades, financiado por fundos nacionais através da FCT/MCTES (PIDDAC)

DOI

https://doi.org/10.34619/yzg7-lyel

Citar este artigo

Almeida Barata, João de. "Real Fábrica das Sedas", in eViterbo. Lisboa: CHAM - Centro de Humanidades, FCSH, Universidade Nova de Lisboa, 2022. (última modificação: 18/03/2024). Consultado a 24 de junho de 2024, em https://eviterbo.fcsh.unl.pt/wiki/Real_F%C3%A1brica_das_Sedas. DOI: https://doi.org/10.34619/yzg7-lyel