Aula Militar da Bahia

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Aula Militar da Bahia
(valor desconhecido)
Outras denominações Aula de Fortificação da Bahia
Tipo de Instituição Ensino Militar
Data de fundação 1696
Data de extinção 1810
Paralisação
Início: valor desconhecido
Fim: valor desconhecido
Localização
Localização Salvador, Bahia, Brasil
Início: 1696
Fim: 1810
Antecessora valor desconhecido

Sucessora valor desconhecido


História

Desde 1674, que se cogitou estabelecer aulas na Bahia, tendo, para efeito, sido consultado o Conselho Ultramarino sobre a possibilidade de encarregar dessa missão o engenheiro António Correia Pinto, que fora discípulo de Luís Serrão Pimentel[1]. Contudo, tal intenção não se efetivou. O ensino militar começou na Bahia, realmente, em 1696. Seguindo as determinações do governador, o capitão engenheiro José Paes Esteves deveria ir "todos os dias à tarde, à casa que tenho destinada junto ao corpo da guarda ensinar aos oficiais e aos soldados e mais pessoas que quiserem aprender, e dar lição da castramentação e da fortificação"[1]. Estas aulas, informais, terão decorrido até 1700-1701, a partir de quando José Paes Esteves passou para o Rio de Janeiro, e foi nomeado para a Bahia o Sargento-Mor António Rodrigues Ribeiro, com a obrigação expressa na sua carta-patente de "ensinar a sua profissão na aula"[1]. A contínua dedicação de António Rodrigues Ribeiro à Aula Miliar é comprovada por várias iniciativas. Ainda, em 1701, fez uma petição para que os oficiais de artilharia, que frequentavam a aula, pudessem ter o soldo de partidista acrescentado ao seu soldo[2]. Em 1707, foram-lhe enviados da corte novos tratados de fortificações que vinham com a recomendação expressa ao sargento-mor de que "estes livros sempre se hão de conservar na aula de maneira que sirvam de um discípulo para os outros"[3]. Nesse ano, o lente insistiu com os comandantes dos terços para que os alunos fossem eximidos das guardas e revistas quando estivessem em aula, mas não obteve o privilégio pedido[4].

Em 1710, com a morte de António Rodrigues Ribeiro, as aulas foram continuadas pelo, então, tenente de mestre de campo Miguel Pereira da Costa. A partir de 1711, o “lente da aula militar de arquitetura” foi o capitão engenheiro Gaspar de Abreu, que tinha sido aluno da Aula de Fortificação de Lisboa[5]. Depois da sua morte em 1718, a regência da aula poderá ter sido retomada pelo mestre de campo, ou continuada pelo capitão Gonçalo da Cunha Lima, que tinha sido “dos discípulos o mais capaz e inteligente que andam na aula da Bahia”[1]. A partir de 1723, a aula foi regida por Nicolau de Abreu e Carvalho, nomeado neste ano como capitão engenheiro da praça da Bahia, com a recomendação de Manuel de Azevedo Fortes de que deveria ser professor na aula militar[1]. Embora Nicolau de Abreu e Carvalho ainda estivesse vivo, a partir de 1749, quem assume a função de lente da aula da Bahia foi o sargento-mor engenheiro Manuel Cardoso de Saldanha, que para tal tinha vindo do reino.

Passados dez anos de exercício na aula, em 1759, diz Manuel Cardoso de Saldanha “ter com sumo desvelo criado discípulos, que bem podem servir de Engenheiros, ditando-lhes 15 tratados com as doutrinas mais modernas e especiais, ensinando-os a desenhar e a configurar terrenos”[6]. Afirmava ainda que se empenhava com “excessivo desvelo dos meus empregos e estudos para instruir os meus discípulos com as doutrinas dos mais famigerados autores franceses, que têm escrito; afim de que nas suas postilhas tenham tudo o que se acha em muitos livros”[6]. Entre estes discípulos estavam Manuel de Oliveira Mendes, e José António Caldas, que viria, alguns anos depois, a substituí-lo na regência da aula.

Sabemos, contudo, por carta do Vice-rei Conde dos Arcos de 17 de Maio de 1757, que os capitães António de Brito Gramacho e Nicolau de Abreu e Carvalho tinham “a obrigação de ditar na Aula Militar desta cidade defensas de praças e expugnação delas e geometria especulativa, sempre que não houvesse oficial determinado por S.M. para este exercício”[7]. O que implica que havia o interesse expresso em manter a aula em funcionamento, mesmo nas circunstâncias em que o mestre regente pudesse não estar presente. Com efeito, no ano de 1757, o sargento-mor Manuel António de Saldanha tinha sido destacado para uma missão à Serra dos Montes Altos e os capitães deveriam substituí-lo na Aula.

Nesta mesma ocasião, o vice-rei sugeriu também que se desse a José António Caldas o mesmo soldo e funções que tinham Gramacho e, Abreu e Carvalho, não só em compensação pelos serviços prestados por ele em São Tomé, mas porque “resultava ao serviço de S. M. a utilidade de ter quem houvesse de instruir alguns moços, que convidados por este exemplo se aplicariam a um tão necessário como importante estudo”[7].

A partir de 25 de Agosto de 1761, foi José António Caldas quem assumiu, efetivamente, a regência da aula. Dez anos depois, em 1771, fez um requerimento afirmando que desempenhava, desde aquela data, o papel de lente da Aula, mas que não havia recebido por isso qualquer acrescento ao seu soldo. Reivindicava, então, que se lhe desse “o mesmo soldo que de mais se dá pelo exercício de ler ao lente da academia de Estremoz, ou ao lente que dita artilharia na torre de São Julião da Barra”, estabelecendo um paralelo muito evidente com as aulas vigentes na metrópole, e com o salário correspondente. Entre os seus argumentos, reafirmava o caráter aberto da aula dizendo que “não só dita as matérias concernentes aos que se destinam para engenheiros, senão ainda artilharia e as mais instruções que formam um homem de guerra”. Além disso, que discípulos que dela saíam bem instruídos se empregavam “não só no exercício de engenheiro e das tropas desta cidade, se não também no Real Erário”[8]. Dentre estes, (dos quais apresenta uma lista) cita o caso dos partidistas António José de Santana Carneiro, que tinha ido por capitão engenheiro para Cabo Verde, e José Ramos de Sousa e José Francisco de Sousa, que eram então ajudantes engenheiros da praça da Bahia[8].

Esta lista é de fundamental importância na medida em que dá conta do impacto qualitativo e quantitativo da aula, apontando não só para a amplitude da formação veiculada, como também para o papel que esta desempenhava, assumindo-se com uma via de acesso a outros cargos na administração colonial, não apenas no âmbito militar. A relação dá conta da proporção relativamente pequena de engenheiros que saíam da aula em relação aos vários discípulos que apenas seguiam a carreira militar, o que aponta para o cumprimento das intenções que Manuel de Azevedo Fortes tinha previsto ao propor a sua criação. Numa leitura meramente estatística do documento podemos apontar que José António Caldas indica apenas três engenheiros formados, mas aponta entre os discípulos 10 soldados e 12 cabos de esquadra que ingressaram na artilharia e que foram progressivamente subindo na carreira; dentre os que já estavam na carreira e ascenderam a diferentes postos, indica 32 nomes nos regimentos e 12 nos auxiliares. Este número “dos que se aplicaram” deve ser colocado em comparação com os 118 “que se não aplicaram e não deram a conhecer a sua capacidade”, mas constavam todos do livro de ponto de José António Caldas e todos tiveram alguma instrução. Além destes, indica, ainda, nomes de quatro discípulos que ingressaram “Nos Tribunais”. São referidos os cargos desempenhados por estes discípulos, entre os quais se indicam os casos de Francisco Xavier Ferreira de Andrade e João António Ferreira, ambos partidistas, que se distinguiram na aula e ingressaram no serviço da Fazenda Real, um como contador geral e escriturário do erário e outro como fiel do tesoureiro geral do erário. Dos outros dois discípulos, sabe-se que um era escrivão dos armazéns e, o outro, feitor e avaliador das fazendas. O documento completa-se com a indicação de que existiam naquela data seis discípulos com partido “que estão hábeis para se empregarem no serviço de S.M. com bom adiantamento e belíssima instrução[8].

José António Caldas permaneceu como lente da Aula Militar até a sua morte em 1782. Entre 1774 e 1776, deu também aulas práticas de artilharia e arte de bombas no regimento de artilharia. No ano seguinte, estas aulas do regimento de artilharia passaram a ser dadas por José Gonçalves Galeão, que, além de exercícios práticos de peça e morteiro, ensinava também geometria.

Em carta datada de Fevereiro de 1778, Gonçalves Galeão afirmava que “os exercícios vou continuando no ensino deles, geometria tenho um número de discípulos dos quais uns andam no 9º livro, outros no 8º, 7º, 6º, 5º e 4º livros de Belidor, todos com admirável gosto”[9]. Com efeito, a lista, que envia em 1780, com a “relação dos oficiais, oficiais inferiores, cadetes e soldados que frequentavam a aula do regimento da Bahia”, incluía 47 indivíduos. De cada um deles era indicado o seu adiantamento, ou seja, que volume do livro de Belidor estavam a estudar[10].

Embora, em 1778, tenha afirmado que “eu não me animo a pedir a V. E. [para ser] lente para o regimento, pois não tenho ciência para o ser[9], Galeão era, pelo menos desde 1780, efetivamente, indicado como lente da aula de artilharia. Os dois polos de formação continuaram em paralelo até a morte de José António Caldas, quando a aula de artilharia absorve, de certo modo, os alunos remanescentes, e passa a ser identificada como aula militar. Com efeito, em 13 de dezembro de 1782, José Gonçalves Galeão foi nomeado pelo Marquês de Valença “Lente de Artilharia e Engenharia”, tendo passado a receber um acréscimo de 20000 reis ao seu soldo, uma reivindicação que, como vimos, José António Caldas nunca chegou a obter.

De todos os modos, já em 1781, na lista de alunos da aula do regimento de artilharia, havia dois cujo “adiantamento” era indicado como “fortificação[11]. Confirmando a passagem, em 1783, a lista tinha já por título “relação dos oficiais, oficiais inferiores, e soldados que se aplicavam ao estudo da aula militar”. Nomeava 46 indivíduos, seis dos quais vindos “da aula de engenharia”[12]. A aula ter-se-á mantido em funcionamento, pelo menos, até 1810. Sucederam a José Gonçalves Galeão na regência das aulas, Manuel Rodrigues Teixeira, que tinha sido aluno da Real Academia de Fortificação e Desenho do Rio de Janeiro, e, depois, José da Silva Leal, que tinha já sido discípulo da aula da Bahia. Em documento que o recomenda ao posto de capitão diz-se que “as matérias que domina são aritmética de Bézout e o curso de Bellide (...) o sistema de Buchot sobre a arte das sombras”[5].

A estrutura do curso da Aula Militar da Bahia não terá sido muito diferente da que era seguida nas instituições congéneres no Rio de Janeiro e na Corte. Em três dias da semana, havia aula pública que durava cerca de três a quatro horas. Nos outros três dias, trabalhava-se o desenho de plantas militares e civis. Regularmente havia exames - conclusões públicas -, que se realizavam na sala dos tenentes generais, onde os alunos deveriam mostrar os seus conhecimentos -, tendo sido realizados oito atos de conclusões públicas entre 1761 e 1779[13].

Em 1725, há indicação de que o curso durava seis anos[5]. Mas, o mais provável é que esta duração variasse muito de acordo com as circunstâncias de cada discípulo. No caso de José António Caldas era o próprio quem afirmava ter “tomado de meu mestre e postilado em 9 anos as matérias concernentes ao dito exercício”[13]. Esta circunstância explica-se sobretudo porque nem todos os alunos frequentavam todas as matérias. Com efeito, a aula estava aberta aos interessados que não estavam obrigados a frequentar o curso completo, mas que, dependendo do seu aproveitamento, seriam por isso recomendados nas suas promoções.

Como exemplo de um destes exames citamos o de Jerónimo da Rocha e Sousa, capitão de bombeiros do regimento de artilharia, que foi examinado por José António Caldas e Teodósio da Silva Reboxo em 23 de outubro de 1779[14]:

“Atestamos que (...) examinamos ao capitão de bombeiros do regimento de artilharia Jerónimo da Rocha e Sousa no que pertence a teórica e prática que deve saber como oficial superior de artilharia, e a tudo quanto lhe perguntamos nos respondeu com satisfação; já em aritmética, já geometria plana e sólida; já em trigonometria, em geometria prática e outras varias matérias de que se compõe a sua profissão. Alem disto o temos visto manobrar com peças de artilharia, morteiro e suas máquinas nos frequentes exercícios, que o Illmo e Exmo Sr. General manda fazer para instrução daquele corpo. Sabe fabricar baterias de terra e faxinas (porque o presenciamos), espaldões, cortar toda a qualidade de cartuchos, dirigir os trabalhadores dos carros de campanha, falsas e outras máquinas que servem de facilitar a manobra de artilharia. Sabe muito bem a composição dos fogos artificiais da guerra, tem bastante inteligência das fundições e sabe fazer os moldes para se fundirem e outras miudezas em que deve ser instruído um oficial  artilheiro e bombeiro, e ainda se distingue na tética e Dinâmica dos corpos o que temos observado no serviço diário da praça onde mostra a sua inteligência e capacidade, por cuja razão o nomeia o Illmo e Exmo Sr General para o mandante do corpo de artilharia, que atualmente está exercendo[14].

Nas palavras de José António Caldas “nas tropas desta capitania são raros os oficiais que não tenham sido instruídos em umas ou outras matérias das que se tem tratado nesta aula, onde acham sempre o lente pronto a lhes soltar as suas dúvidas”[13]. Lamentava, contudo, a alguns “Tenentes e oficiais inferiores os quais não continuaram mais as lições da aula, perdendo-se assim muitos moços que podiam ser utilíssimos ao real serviço e ao público se se lhes impusesse a obrigação de a frequentarem”[13].

Os que tinham obrigação de frequência e aproveitamento eram os que recebiam um soldo especial como “praticantes do número da Aula Militar da Bahia” ou “partidistas”. O número de partidistas terá sido variável ao longo do tempo.

Numa primeira consulta sobre o assunto, em 1674, ainda antes do início efetivo das aulas, o concelho ultramarino opinava que: “acerca dos partidos que se podiam consignar aos que aprendessem, lhe parecia bastante seis partidos, e para aquelas partes quatro, atendendo-se sempre a carestia da terra; porém que não era de parecer que os partidos se deem a soldados, e menos a reformados, ainda que pareça conveniente, porque a experiência lhe tinha mostrado que como vão com ânimo de seguirem somente o caminho da soldadesca se aplicam ao estudo da fortificação mais por vencerem os partidos que por saberem a arte, e os reformados com a opinião dos postos que tiveram hão de querer comer os partidos sem utilidade”[1]. Contudo, até 1713 terão sido apenas três, pois o governador Pedro de Vasconcelos pede neste ano que este número fosse acrescentado[1]. Supõe-se que, a partir de então, o seu número possa ter variado entre três e seis. Em 1767, D. António Rolim de Moura, diz ter encontrado a aula, à sua chegada ao governo, "quase abandonada", mas que com o seu impulso e sugestão do aumento do número de partidistas, contava, então, "com entusiasmados estudantes"[5].

O tempo que permaneciam como partidistas também era bastante variável e são várias as circunstâncias em que os discípulos continuavam a receber o partido mesmo depois de finda base de formação, como é o caso do próprio José António Caldas que já se referiu, assim como José de Anchieta Mesquita, que recebeu o partido por cerca de dez anos. Para manter o partido era necessário apresentar, regularmente, certidão assinada pelo lente dando conta da “frequência graduação e adiantamento” na aula[15]. Importa ter em conta que, pelo menos desde 1770, quem recebia o partido tinha “obrigação de servir em todas as ocasiões que se oferecerem e posto em que se achar nesta capitania e Reino de Angola” [15] apontando para o alcance e vinculação imperial da formação feita na Bahia.

Os “praticantes do número da Aula Militar da Bahia” fizeram, em ano anterior a 1780, uma representação à rainha reivindicando que se praticasse com eles o mesmo que se observava com os praticantes da corte e do Rio de Janeiro, a quem se tinha concedido o soldo e graduação de alferes[16].

Outras informações

O Conde de Povolide, que foi governador da Bahia entre 1769 e 1774, é enfático no elogio a José António Caldas e ao seu trabalho na aula, dizendo que os seus discípulos “se achavam fundamentalmente ensinados em várias partes da matemática, sabendo todos bem a geometria e aritmética e outros adiantados em trigonometria e outras partes da matemática”[8].

Com efeito, as informações mais detalhadas que dispomos sobre o funcionamento das aulas vêm de depoimentos de José António Caldas. Em requerimento datado de 1771, afirmava que “não só dava três dias da semana lições na Aula pública por três e quatro horas de tempo, se não que nos outros três dias a dá do risco das plantas militares e civis, contribuindo para isto com papel, tinta, penas, lápis e tudo o mais necessário para o desenho, (...), fazendo anualmente conclusões públicas na sala dos tenentes generais nas matérias que se ditam na dita aula fazendo por este modo conhecer o adiantamento e capacidade dos que se distinguem nos estudos dela, afim de exercitar nos discípulos uma nobre vaidade, e emulamento, tudo afim de que hajam moços com inteligência e capazes de se empregar no serviço de S.M.”[8]. Nesta mesma ocasião elenca as matérias que ditava: “não só tem ditado e explicado na dita aula aritmética, álgebra, geometria especulativa e prática, trigonometria e fortificação senão também a pirotecnia que contem a ciência dos fogos artificiais para guerra e festivos, artilharia e arte de deitar bombas em cujo tratado sustentou conclusões públicas em 27 de junho de 1768”[8].

Volta a referir com mais detalhe as matérias ensinadas em documento datado de 1779:

"As matérias que tenho ditado, ensinado, e explicado na dita Academia são Aritmética, Álgebra, Geometria Elementar, Trigonometria, Geometria Prática, onde além de tratar da longimetria, altimetria, planimetria, estereometria, geodesia e pantometria, se tratou também do nivelamento, arpentage, e medição das obras de cantaria, alvenaria e carpintaria, e uma boa parte de geografia, modo de tirar as cartas geográficas, topográficas e iconográficas, e a desenhar toda a qualidade de plantas militares e civis, com um ensaio da ótica para extração dos prospectos: fortificação das praças, cálculo de sua despesa e de toda a qualidade de edifícios militares e civis que nelas se empregam, ataque de praças, defesa de praças, castramentração, em que não só se tratou do acampamento particular das tropas, mas também o geral de um exército e se inseriu uma Arte da Guerra, com vários princípios da tática dos corpos de infantaria, cavalaria, um apêndice da fortificação passageira, ou de campanha: artilharia, arte de bombas teórica e praticamente, fogos artificiais da guerra e os festivos, mecânica, estática, o mecanismo das abóbadas com o cálculo das muralhas e pés direitos, hidráulica e finalmente arquitetura civil"[13].

Um dos documentos mais interessantes produzidos no âmbito da Aula Militar da Bahia encontra-se guardado no Arquivo Histórico Ultramarino em Lisboa. Trata-se de um conjunto de 46 desenhos manuscritos, realizados entre 1778 e 1779, que correspondem a cópias de ilustrações de tratados. Os desenhos estão assinados por cinco alunos de José António Caldas: António Mendes (1778, 2 desenhos), João de Sousa (1778, 2 desenhos), Manuel António Ribeiro (1779, 6 desenhos), Inácio José (1779, 30 desenhos), Joaquim Vieira da Silva (1779, 6 desenhos). As ilustrações contêm elementos relativos à geometria elementar, geometria prática e trigonometria, teoria das ordens clássicas, castrametração, elementos de fortificação, materiais e ataque e defesa de praças e foram retiradas, entre outros, dos seguintes tratados:[5]

De Belidor, La Science des ingénieurs dans la conduite des travaux de fortification et d’Architecture civile. Paris: [s.ed.], 1929; Nouveau Cours de Mathématique à l’usage de l’artillerie et du génie. Paris: 1720; Architecture hydraulique, ou l’art de conduire, d’élever et de ménager les eaux pour les différents besoins de la vie. 4 Vols. Paris: 1737-1753; De Étienne Bézout, Cours de Mathématiques à l’usage du corps royale d l’artillerie. Paris: 1777; Bucchotte, Les règles du dessin et du lavis. Paris: 1722; Manuel de Azevedo Fortes, O Engenheiro Português. 2 Vols. Lisboa: 1728-1729; Vauban, Traité de l’attaque et de la défense des places. 2 Vols. La Haye: 1742-1743.


Alunos partidistas identificados (citados em trabalhos de cartografia e desenho): 

Gonçalo da Cunha Lima (antes de 1718, discípulo de Gaspar de Abreu); João Baptista Barreto (antes de 1718, discípulo de Gaspar de Abreu); João Teixeira de Araújo (c. 1718-1724); António de Brito Gramacho (1718-1720); Manuel de Oliveira Mendes (discípulo de Manuel Cardoso de Saldanha); José António Caldas (c. 1753-1758, discípulo de Manuel Cardoso Saldanha); João Afonso da Fonseca Bittencourt (antes de 1767, discípulo de Caldas, acompanha o mestre nos levantamentos no Espírito Santo); José Ramos de Sousa (antes de 1767, discípulo de Manuel Cardoso Saldanha e José António Caldas); João Crisóstomo de Sousa (antes de 1767, discípulo de Caldas, acompanha o mestre nos levantamentos no Espírito Santo), José de Anchieta Mesquita (1770-1780, discípulo de Caldas); João de Sousa de Castro (c. 1777, discípulo de Caldas); Manuel Álvares Barbosa (discípulo de Caldas); Luís da Rocha e Sousa (discípulo de Caldas); António Mendes (1778, discípulo de Caldas); Manuel António Ribeiro (1779, discípulo de Caldas); Inácio José (1779, discípulo de Caldas); Manuel Gomes (discípulo de Caldas), José Francisco de Sousa (discípulo de Caldas); António José de Santana Carneiro (discípulo de Caldas);  José Luís Gomes (- 1782, discípulo de Caldas); Joaquim Vieira da Silva (1779, discípulo de Caldas e de José Gonçalves Galeão); António Vicente Belês (1788-1799, discípulo de Galeão); Francisco Manuel da Cunha (1799- , discípulo de Manuel Rodrigues Teixeira de Aguiar); Sílvio de Araújo e Almeida (1795-1796, discípulo de Manuel Rodrigues Teixeira); João da Silva Leal (1795-1799, discípulo de Manuel Rodrigues Teixeira de Aguiar).

Professores

Professores da Aula Militar da Bahia: entre 1696-1701, José Paes Esteves; entre 1701-1710, António Rodrigues Ribeiro; entre 1710-?, Miguel Pereira da Costa; entre 1711-1718, Gaspar de Abreu; entre 1718-1731, Gonçalo da Cunha Lima; entre 1723-1757, Nicolau de Abreu Carvalho; entre 1731-1757,António de Brito Gramacho; entre 1749-1767, Manuel Cardoso de Saldanha; entre 1761-1782, José António Caldas; entre 1777-1797, José Gonçalves Galeão; entre 1798-c. 1806, Manuel Rodrigues Teixeira de Aguiar; e em 1810, João da Silva Leal.

Curricula

Ano Nome da Cadeira Matérias Livros Professores
1696-1701 Lição de castrametração e fortificação José Paes Esteves
1701-1710 António Rodrigues Ribeiro
1710 - Miguel Pereira da Costa
1711-1718 Aula Militar de Arquitetura Gaspar de Abreu
1718- 1731 Gonçalo da Cunha Lima
1723-1757 Defensas de Praças e Expugnação delas e Geometria especulativa Nicolau Abreu de Carvalho
1731 - 1757 Defensas de Praças e Expugnação delas e Geometria especulativa António de Brito Gramacho
1749- 1767 15 tratados de autores franceses Manuel Cardoso de Saldanha
1761-1782 Aritimética, Álgebra, Geometria elementar, Trigonometrira, Geometria prática, geografia, modo de tirar cartas geográficas, ótica, fortificação, ataque e defesa de praças, castrametração, tática, fortificação de campanha, artilharia, bombas e fogos artificiais, mecânica, estática, abóbadas, hidráulica e arquitetura civil De Belidor,

Étienne Bézout,

Bucchotte.

Manuel de Azevedo Fortes,

Vauban.

José António Caldas
1777-1797 Artilharia, geometria e engenharia Belidor José Gonçalves Galeão
1798-1806 Manuel Rodrigues Teixeira de Aguiar
1810 Belidor, Bezout, Buchotte José da Silva Leal

Notas

  1. 1,0 1,1 1,2 1,3 1,4 1,5 1,6 Oliveira, As Fortificações Portuguesas de Salvador.
  2. Arquivo Histórico Ultramarino. Bahia. Códice 246, fl. 140. 23 de maio de 1701.
  3. Arquivo Histórico Ultramarino. Bahia. Códice 246, fl. 225a. Registro de Cartas Régias. 1 de fevereiro de 1707.
  4. Arquivo Histórico Ultramarino. Bahia. Códice 246, fl. 235. 18 de novembro de 1707.
  5. 5,0 5,1 5,2 5,3 5,4 Bueno, Desenho e Desígnio, 220-231.
  6. 6,0 6,1 Arquivo Histórico Ultramarino. ACL. CU, 5, cx. 24, doc. 4472. Carta de Manuel Cardoso Saldanha para Tomé J. da Costa Corte Real, instando pela licença régia que lhe permitisse regressar ao Reino e pedindo que lhe fosse dada a patente de Coronel Engenheiro. Bahía, 29 de Julho de 1759.
  7. 7,0 7,1 Arquivo Histórico Ultramarino. CU. Brasil. Bahia. Catálogo Castro e Almeida, cx. 22, doc. 4101-4102. Oficio do Vice-Rei Conde dos Arcos para Tomé Joaquim da Corte Real, em que refere aos serviços prestados pelo Engenheiro José António Caldas nas ilhas de São Tomé e Príncipe e a necessidade imperiosa de os recompensar condignamente. Bahía, 19 de Maio de 1759.
  8. 8,0 8,1 8,2 8,3 8,4 8,5 Arquivo Histórico Ultramarino. CU. Brasil. Bahia. Catálogo Castro e Almeida, doc. 8529-8537. Ofício do Governador Conde Povolide no qual informa favoravelmente acerca de vários requerimentos de José António Caldas. Bahía, 6 de Agosto de 1771.
  9. 9,0 9,1 Arquivo Histórico Ultramarino. CU. Brasil. Bahia. Catálogo Castro e Almeida, doc. 9667-9671. Carta do 2º tenente José Gonçalves Galeão em que informa do ensino que professava no regimento de Artilharia e dos progressos obtidos nos exercícios práticos com as peças e morteiros. Bahía, 17 de Fevereiro de 1778.
  10. Arquivo Histórico Ultramarino. CU. Brasil. Bahia. Catálogo Castro e Almeida, doc. 10527-10531. Carta do tenente José Gonçalves Galeão para Martinho de Melo e Castro no qual de se refere à aula do regimento de artilharia e às experiências das madeiras que fizera o coronel Teodósio da Silva Reboxo. Bahía, 12 de Abril de 1780.
  11. Arquivo Histórico Ultramarino. ACL. CU, 5, cx. 180, d. 13476. Ofício do capitão de artífices e diretor da Aula de Artilharia da Bahia José Gonçalves Galeão, remetendo a relação dos alunos. Bahía, 22 de Junho de 1781.
  12. Arquivo Histórico Ultramarino. CU. Brasil. Bahia. Catálogo Castro e Almeida, doc. 11201-11202. Carta do José Gonçalves Galeão para Martinho de Melo e Castro no qual de se refere à remessa da relação dos seus discípulos da Aula Militar. Bahía, 29 de Março de 1783.
  13. 13,0 13,1 13,2 13,3 13,4 Arquivo Histórico Ultramarino. CU. Brasil. Bahia. Catálogo Castro e Almeida, doc. 10151. Carta de José António Caldas para Martinho de Melo e Castro em que refere os seus longos serviços e aproveitamento dos seus discípulos e insiste pelo deferimento do requerimento em que pedira algum soldo pela regência da aula. Bahía, 20 de Maio de 1779.
  14. 14,0 14,1 Arquivo Histórico Ultramarino. CU. Brasil. Bahia. Catálogo Castro e Almeida, doc. 10362. Atestado de Teodósio da Silva Reboxo e José António Caldas. Bahía, 29 de Outubro de 1779.
  15. 15,0 15,1 Arquivo Histórico Ultramarino. ACL. CU, 5, cx. 179, d. 13357. Requerimento de José de Anchieta de Mesquita, partidista do número da Aula Militar da Bahia, à rainha D. Maria I solicitando o posto de ajudante de engenheiro ou outro nas tropas da parada da referida cidade. [post.] 27 de Abril de 1780.
  16. Arquivo Histórico Ultramarino. ACL. CU, 5, cx. 180, d. 13427. Representação dos praticantes do número da Aula Militar da cidade da Bahia à rainha em que pdem o soldo e graduação de alferes, conforme procedimento tomado em relação aos praticantes do Rio de Janeiro. [ant.] 9 de Novembro de 1780.

Fontes

Arquivo Histórico Ultramarino. ACL. CU, 5, cx. 24, doc. 4472. Carta de Manuel Cardoso Saldanha para Tomé J. da Costa Corte Real, instando pela licença régia que lhe permitisse regressar ao Reino e pedindo que lhe fosse dada a patente de Coronel Engenheiro. Bahía, 29 de Julho de 1759.

Arquivo Histórico Ultramarino. ACL. CU, 5, cx. 179, d. 13357. Requerimento de José de Anchieta de Mesquita, partidista do número da Aula Militar da Bahia, à rainha D. Maria I solicitando o posto de ajudante de engenheiro ou outro nas tropas da parada da referida cidade. [post.] 27 de Abril de 1780.

Arquivo Histórico Ultramarino. ACL. CU, 5, cx. 180, d. 13427. Representação dos praticantes do número da Aula Militar da cidade da Bahia à rainha em que pdem o soldo e graduação de alferes, conforme procedimento tomado em relação aos praticantes do Rio de Janeiro. [ant.] 9 de Novembro de 1780.

Arquivo Histórico Ultramarino. ACL. CU, 5, cx. 180, d. 13476. Ofício do capitão de artífices e diretor da Aula de Artilharia da Bahia José Gonçalves Galeão, remetendo a relação dos alunos. Bahía, 22 de Junho de 1781.

Arquivo Histórico Ultramarino. Bahia. Códice 246, fl. 140. 23 de maio de 1701.

Arquivo Histórico Ultramarino. Bahia. Códice 246, fl. 225a. Registro de Cartas Régias. 1 de fevereiro de 1707.

Arquivo Histórico Ultramarino. Bahia. Códice 246, fl. 235. 18 de novembro de 1707.

Arquivo Histórico Ultramarino. CU. Brasil. Bahia. Catálogo Castro e Almeida, doc. 8529-8537. Ofício do Governador Conde Povolide no qual informa favoravelmente acerca de vários requerimentos de José António Caldas. Bahía, 6 de Agosto de 1771.

Arquivo Histórico Ultramarino. CU. Brasil. Bahia. Catálogo Castro e Almeida, doc. 9667-9671. Carta do 2º tenente José Gonçalves Galeão em que informa do ensino que professava no regimento de Artilharia e dos progressos obtidos nos exercícios práticos com as peças e morteiros. Bahía, 17 de Fevereiro de 1778.

Arquivo Histórico Ultramarino. CU. Brasil. Bahia. Catálogo Castro e Almeida, doc. 10151. Carta de José António Caldas para Martinho de Melo e Castro em que refere os seus longos serviços e aproveitamento dos seus discípulos e insiste pelo deferimento do requerimento em que pedira algum soldo pela regência da aula. Bahía, 20 de Maio de 1779.

Arquivo Histórico Ultramarino. CU. Brasil. Bahia. Catálogo Castro e Almeida, doc. 10362. Atestado de Teodósio da Silva Reboxo e José António Caldas. Bahía, 29 de Outubro de 1779.

Arquivo Histórico Ultramarino. CU. Brasil. Bahia. Catálogo Castro e Almeida, doc. 10527-10531. Carta do tenente José Gonçalves Galeão para Martinho de Melo e Castro no qual de se refere à aula do regimento de artilharia e às experiências das madeiras que fizera o coronel Teodósio da Silva Reboxo. Bahía, 12 de Abril de 1780.

Arquivo Histórico Ultramarino. CU. Brasil. Bahia. Catálogo Castro e Almeida, doc. 11201-11202. Carta do José Gonçalves Galeão para Martinho de Melo e Castro no qual de se refere à remessa da relação dos seus discípulos da Aula Militar. Bahía, 29 de Março de 1783.

Arquivo Histórico Ultramarino. CU. Brasil. Bahia. Catálogo Castro e Almeida, doc. 15224-15236. Ofício do Governador D. Fernando José de Portugal para Martinho de Melo e Castro, em que expõe as dúvidas suscitadas pelo vedor sobre o vencimento que recebia o sargento-mor José Gonçalves Galeão como lente de Artilahria e Engenharia, lugar que exercia desde 1777. Bahía, 9 de Março de 1793.

Arquivo Histórico Ultramarino. CU. Brasil. Bahia. Catálogo Castro e Almeida, cx. 22, doc. 4101-4102. Oficio do Vice-Rei Conde dos Arcos para Tomé Joaquim da Corte Real, em que refere aos serviços prestados pelo Engenheiro José António Caldas nas ilhas de São Tomé e Príncipe e a necessidade imperiosa de os recompensar condignamente. Bahía, 19 de Maio de 1759.

Bibliografia

Bueno, Beatriz Piccolotto Siqueira. Desenho e Desígnio: O Brasil Dos Engenheiros Militares (1500-1822). São Paulo: Editora da Universidade: Fapesp, 2011.

Oliveira, Mário Mendonça de. As Fortificações Portuguesas de Salvador Quando Cabeça Do Brasil. Salvador: Omar G., 2004.

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Categoria: Aula Militar da Bahia

Autor(es) do artigo

Renata Araújo

CHAM - Centro de Humanidades, FCSH, Universidade Nova de Lisboa e Universidade do Algarve

https://orcid.org/0000-0002-7249-1078

Financiamento

Fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto TechNetEMPIRE | Redes técnico-científicas na formação do ambiente construído no Império português (1647-1871) PTDC/ART-DAQ/31959/2017

DOI

https://doi.org/10.34619/wdf3-xmxm

Citar este artigo

Araújo, Renata. "Aula Militar da Bahia", in eViterbo. Lisboa: CHAM - Centro de Humanidades, FCSH, Universidade Nova de Lisboa, 2022. (última modificação: 02/07/2024). Consultado a 12 de julho de 2024, em https://eviterbo.fcsh.unl.pt/wiki/Aula_Militar_da_Bahia. DOI: https://doi.org/10.34619/wdf3-xmxm